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MERGULHADORES PROFISSIONAIS PORTUGUESES <$BlogRSDUrl$>

29/05/2004

O SISTEMA DIGESTIVO

Tendo em conta que: Parece existir alguém com problemas digestivos, aqui deixo um pequeno texto, em relação ao porquê ser bom, fazer merda em todo o lado.
Esta é uma história de mares tempestuosos, chuvas ácidas, e zonas desérticas. É uma viagem dura que atravessa longas distâncias e que pode demorar vários dias. É uma viagem de onde nada regressa inalterado. Esta é a história do nosso sistema digestivo, cujo objectivo é transformar aquilo que comemos em algo útil para o organismo!

Sempre a descer
Tudo começa na primeira dentada naquela fatia de pizza. Os dentes desfazem aquele bocado de comida. As glândulas salivares começam a cuspir saliva como se fossem fontes. Os molares amassam a pizza, transformando-a numa bola grande e molhada. Os químicos da saliva começam a fazer efeito. Como que por magia, alguns pedaços da pizza começam a transformar-se em açúcar! Mais algumas mastigadelas e a língua empurra a bola de comida mastigada para a garganta. Abre-se uma porta, e lá vai ela, pela goela abaixo!

A seguir, os músculos do esófago espremem a bola de comida para descer ainda mais, exactamente da mesma maneira como apertamos um tubo de pasta de dentes. Não é uma coisa que nós possamos dizer aos músculos para fazerem - eles fazem-no sozinhos, numa acção que se chama movimentos peristálticos. De seguida, a válvula do estômago abre-se e a pasta de pizza cai lá dentro!

Dentro do estômago
Imagina estares dentro de um grande saco muscular cor-de-rosa, a seres empurrado para trás e para a frente num mar de comida semi-digerida e sendo misturado com um monte de químicos digestivos. Chuvas ácidas caem das paredes do saco, que por sua vez são extremamente viscosas devido ao muco que as protege de se digerirem a elas próprias.

De cada vez que te conseguires equilibrar, as paredes de músculo contraem-se e expandem-se de novo. Vezes e vezes seguidas mergulhado nas ondas que se formam com o movimento das paredes. Cada onda mistura a comida com os químicos, partindo os pedaços de comida em pedaços ainda mais pequenos. De seguida, abre-se outra válvula. Pensas que é o fim, à medida que és empurrado para o intestino delgado.

Dentro do intestino, químicos e líquidos provenientes de sítios como os rins ou pâncreas, misturam aquilo que ainda sobrou do estômago. O intestino delgado é como um estranho mundo subaquático cheio de coisas que parecem cactos com a forma de dedos. Mas não são cactos, são vilosidades. Tal como esponjas, eles têm a capacidade de absorver enormes quantidades de nutrientes da comida. É através das vilosidades que os nutrientes passam para a corrente sanguínea.

Mas a história ainda não acabou! As sobras que o corpo não consegue aproveitar ainda têm um longo caminho a percorrer! Elas são empurradas para o intestino grosso, que é mais largo e mais seco. As sobras vão tornando-se mais pequenas, duras e secas à medida que são empurradas pelo intestino. É aqui que a água é extraída e reciclada de volta para o corpo. De facto, as sobras que saem do corpo são 1/3 do tamanho do que aquilo que chegou aos intestinos!

Onde a comida se transforma em merda
Finalmente, o final do intestino grosso está à vista! Neste momento, as sobras secas já são acastanhadas. Elas esperam no final da viagem pela tua ordem de despejo - pelo cú. O resto, é claro, já toda a gente conhece! Uma viagem gloriosa, mas um pouco mal cheirosa, não acham?
Depois de todo este processo, digam lá se não se sentem mais aliviados?
Não é assim bom, poder fazer merda em todo o lado?

Curiosidades:

Qual é o comprimento dos intestinos? Pelo menos 7,5 metros nos adultos. Se acham que é muito, dêem graças a Deus por não serem um cavalo adulto que tem nada mais nada menos do que 27 metros de intestino!

Mastigar comida demora entre 5 e 30 segundos.

Engolir demora cerca de 10 segundos.

A comida pode andar às voltas no estômago durante 3 a 4 horas.

A comida demora 3 horas a atravessar o intestino.

A secagem e 'passeio' da comida pelo intestino grosso pode demorar entre 18 horas e 2 dias.

Durante uma vida, o sistema digestivo aguenta com 50 toneladas de comida.

O intestino delgado mede entre 6 a 9 metros. O intestino grosso tem 1,5 metros, mas é 3 vezes mais largo.

O ácido hidroclorídrico presente no estômago é tão corrosivo que poderia deixar marcas na chapa de um automóvel.

A sensação de fome provém de fibras nervosas situadas na porção superior do esófago e não do estômago, como geralmente se supõe. Quando a região é anestesiada, a fome desaparece por completo. Esta é a razão pela qual as pessoas que cheiram cocaína ou fumam "crack" não sentem fome e emagrecem muito rapidamente, lá voltamos nós a parte do pessoal que se droga, neste caso para os patrões que pagam as refeições é bom, pois têem menos despessas.
Acho mesmo, que o pessoal só se droga e bebe, para afogar as magoas do mergulho!


27/05/2004

X-Sender: zetazeta4@hotmail.com
From: "merg. prof."
To: xaputa@lycos.com
Bcc:
Subject: um elefante
Date: Thu, 27 May 2004 12:44:38 +0000
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Message-Id:
X-Originalarrivaltime: 27 May 2004 12:44:38.0325 (UTC) FILETIME=[5F481650:01C443E8]



É uma afronta dizer aqui neste pasquim que ...."temos até memória de elefante."
Quando o que estes senhores que de mergulhadores sou teem o nome e muito queimado ,afinal o que têm é pezinhos de elefante porque "onde andam fazem merda..."
Se o tempo gasto em guerras surdas, fosse em prol da paz e estabilidade no mergulho, o mergulho estaria muito mas mesmo muito BEM
// posted by xaputa @ 7:47 A
Será que a tal memoria de gali-fante nao se perdeu agora ?????

Aprendam a viver com as vossas frustraçoes e aberraçoes e olhem bem para dentro ( há eco eu sei ) ....

E o pior que se pode fazer é dar conversa a elefantes .... assim sendo aqui vai um amendoim ... de boca cheia nao dizem merda so falta tratar dos pezinhos ...

estou farto de palhaçada e de elefantes cor de rosa ....sonhem amigos sonhem mas nao tratem mais mal quem trabalha



O comentário mais indicado para este mail seria: Sem comentários!!!!
Mas como no mail, são proferidas algumas afirmações de carecter ofensivas, não podemos de alguma forma deixar passar em branco, tais afirmações.
Assim sendo,e levando em conta a ordem das mesmas.
Pasquim:Se tivermos em conta o sentido actual da palavra, poderemos considerar que o titulo que nos e posto por V.Exa., um pouco provocador: Mas como por aqui vamos um pouco mais longe na origem da palavra encontramos motivos de orgulho, assim afirmamos claramente PASQUIM sim senhor e com muita honra, e pegando neste exemplo posso afirmar que a nossa vontade seria meter-lhe o caralho na boca, ficou ofendido? Então procure a origem da palavra.
Quanto a: De mergulhadores só termos o nome e mais nada e muito queimado, temos a informar que nunhum de nós se chama Mergulhadores, e de queimaduras que eu saiba tambem estamos isentos, alguns cortes, alguns pontos, algumas caries mas quiemaduras graças a deus e até a data não.
Quanto aos pesinhos de elefante, por vezes até dava jeito, para alguns trabalhos de regularização, ou quem sabe poder dar um bom pontapé no cú de certa gente.
Quanto ao "por onde andam só fazem merda"- Tenho a dizer que é para nós um orgulho muito grande, podermos fazer merda por onde andamos,é sinal de bom funcionamento do sistema digestivo, pois caso contrário rebentariamos, pelos vistos não é o seu caso, por isso aconselhamos que consulte o seu médico rapidamente, evitando assim uma catastrófe ecológica, e que dependendo ainda da zona de ocorrência, poderá ser ainda considerado, um crime ambiental.
Em relação a vivermos com as nossas frustações e aberrações, acho que essa têm sido a sina de todos os mergulhadores, viver frustado com tamanhas aberrações.
Quanto ao eco, é voçe que diz, pois é voçe que sabe.
Quanto a dar conversa a elefantes, estamos plenamente de acordo.
Em relação ao sonhar, já que trabalho há pouco, dinheiro muito menos, pelo menos deixe-nos algo que espero bem, tambem não nos retire o SONHAR, já quase temos de pagar para trabalhar, quer ver que tambem temos de pagar para sonhar?
Na questão de tratar mal quem trabalha,e tendo em conta o sentido actual da palavra longe de nós tal idéia, pois os que trabalham já são tão poucos que tratar mal os mesmos, era uma perfeita injustiça, se o sentido da palavra é tambem a sua origem, então afirmamos que o trabalho a si faz bem, e esse mesmo o seu local, e por favor continue por ai pois nós aqui gostamos, para nós trabalho nikles.
Depois deste seu mail, só fica a dúvida:
Voçê será: Cabotino, Zoilo ou Tartufo?




Recebemos este mail, com um pedido para colocar umas fotos.

Date: Wed, 26 May 2004 09:03:15 +0000
X-Originating-Email: [zetazeta4@hotmail.com]
X-Sender: zetazeta4@hotmail.com
From: "merg.prof"
To: xaputa@lycos.com
Subject: PERGUNTA AO BLOG
To: xaputa@lycos.com






SERÁ QUE SE PODE PUBLICAR FOTOGRAFIAS ?
SERÁ QUE SE PODE PUBLICAR AS MUITAS ENTREVISTAS QUE FORAM DADAS AO LONGO DOS
ANOS NAS MAIS DIVERSAS PUBLICAÇOES DE MERGULHO E NAO SÓ ?
ESTAS ENTREVISTAS QUANDO COMPARADAS PODERAM SERVIR PARA VER QUEM FALTA AO
RESPEITO AOS MERGULHADORES E AO PROPRIO LUIS VAZ DE CAMOES

PROMETO QUE NAO REVELO AS CARAS .. PORQUÊ OS NOMES DOS ARTISTAS JÁ NOS
SABEMOS ...

PS : ESPERO QUE AS BREVES INTREVENÇOES DESTES TAIS ARTISTAS NAO LHES TRAGAM
UM GRANDE AMARGO DE BOCA ( ALGO ME DIZ QUE SIM )



Tendo em conta que a mesma pessoa, nos enviou um mail ha dias, em tons de ameaças.





X-Originating-Email: [zetazeta4@hotmail.com]
X-Sender: zetazeta4@hotmail.com
From: "cand. trin"
To: xaputa@lycos.com
Bcc:
Subject: ..
Date: Thu, 29 Apr 2004 20:00:17 +0000




JOVEM ESTÁ ATENTO PORQUE ANDAS A PISAR O RISCO E AINDA ESCORREGAS NA MERDA
QUE ANDAS A FAZER E É POUCO PROVAVEL QUE ALGUEM TE AJUDE A LEVANTAR .
APARTIR DE AGORA VOU ESTAR DE OLHO NO QUE ESCREVES ONDE ESTAS A TRABALHAR
COM QUEM E O QUE FAZES . E ACREDITA QUE TENS MUITO A PERDER MUITO MAIS QUE
EU ....
TU PENSAS QUE SAO TODOS GAIATOS E IGNORANTES MAS MAIS UMA VEZ TE DIGO
.....ATENÇAO NAO TE DISTRAIAS .



Das duas uma: Ou já se esqueçeu do mail que nos enviou com as referidas ameaças, ou já considera util o uso do blog.
No caso de já se ter esquecido daquilo que escreveu, nos lembramos-lhe (post acima)
Caso ja considere util o blog, pois pelos vistos ja ca quer por fotos e tudo, achariamos de bom tom e como mandam as regras da boa educação:
1º- Retratar-se do seu primeiro mail. Sabe e que nos aqui não nos esqueçemos, temos até memória de elefante.
2º-Quanto as ameaças proferidas, como já foi dito em resposta ao seu mail, estão neste momento em sede própria, e como tal irá ter noticias em breve.
3º-Quanto ao saber onde ando a trabalhar e com quem, só revela a sua perfeita ignorância de quem somos.
4-Quanto ao ter mais a perder que voçe, mais uma revelação de perfeita ignorância.
5-Quanto ao seu pedido para colocação de fotos, a resposta e não, não por todo o seu passado mas não, por o tipo de blog criado não aceitar fotos , poderiamos alterar o mesmo, mas acho que isto se tornaria depois uma galeria de imagens.
Quanto a forma de poder publicar as fotos e façil, crie uma base de dados em fotos num servidor qualquer de fotografias, e depois e só enviar aqui para o blog o endereço onde estão as mesmas e nós publicamos o endereço, com muito gosto.
Apesar de tudo, já sabe o blog está a sua inteira disposição e sem rancor, e de todos aqueles que queiram contribuir.
Pelos ultimos mails recebidos, e facil identificar uma guerra aberta entre 3 0u 4 mergulhadores, dai pedirmos que nos vossos mails identifiquem a quem se referem, para que possamos todos saber o alvo das vossas itenções, não deixando no ar varios ipoteticos alvos, e como sabem nesta actividade todos têm telhados de vidro, no fundo todos se sentem atingidos.
O nosso objectivo e alertar e talvez tentar mudar aquilo que está mal, que pelo nosso ponto de vista E TUDO.
Se o tempo gasto em guerras surdas, fosse em prol da paz e estabilidade no mergulho, o mergulho estaria muito mas mesmo muito BEM

26/05/2004

X-Sender: blablabla@anonymus.com
From: "Luis Vaz de Camões" To: xaputa@lycos.com
Bcc:
Subject: PARA PUBLICAR NO BLOG
Date: Sun, 25 May 2004 22:03:08 +0000

DICIONÁRIO DE MERGULHADORES EM ATAQUES DE COOLTURA

Dedicado a todos os abençoados que não sabem fazer rigorosamente nada. E dedicado ainda aos que se consomem em tentar ser úteis e produtivos. E mais dedicado ainda aos que pensam que isto é uma perca de tempo. E ainda mais dedicado aos que não sabem perder tempo, e se dedicam a prescrever o tempo dos outros. E muito, mas mesmo muito mais dedicado, a quem cita Camões, em ataques de cooltura, com a finalidade de levar moralistas ao phoder! O novo dicionário de mergulhadores em ataques de cooltura enternece-se com aqueles que se martirizam porque não têm tempo, e avisa-os de que não vale a pena fazerem-no de cabeça para baixo porque o S.Pedro também já se lembrou disso. As terapias alternativas talvez possam dar um contributo a tais personagens.


Mergulhador – Nobre actividade, que em Portugal surge prejudicada porque, ao sê-lo, fica associada a uma marca de presunto

Amor ao próximo – Boa oportunidade para quem não quer desperdiçar nenhum pobre dos que tenha mais à mão.

Dar porrada – Quando a mente despede o corpo, e este reivindica a indemnização mais justa, em vez de se contentar com uma reforma antecipada.

Meditação – A suspensão da mente é uma sábia alternativa para quem tem pesos na consciência, mas não sei se recomendável a “ testas de ferro”. É que a transcendência é magnética.

Desporto – Fazer do espalhafato do corpo a passerelle da alma. Só que os apitos d’oiro no mergulho, atrapalham tanto como os saltos altos, e infelizmente nem sequer dão boa serventia a prender o cabelo.

Ter princípios – Desconsolada alternativa para quem não consegue ter finalidades

Sexo – Quando há libido no cais, o melhor é apanhar mesmo o cacilheiro, antes que chegue o lodo (e estrague o berbigão).

Justiça – Quando as mãos estão a descansar da manicura, uma boa opção é esfregá-las na culpa alheia para que as peles amoleçam e não se voltem a soltar sangrando

Droga – Química ocupacional. Mas acabamos provetas.

Música – Os sons apresentados em forma de sonsice (depois do fim-de-semana já se sabe que o trocadilho é inevitável)

Dar conselhos – Aliviar a alma sacudindo para o penico do alheio. Só que, quem tem medo de o fazer, é porque está encolhido, e agarradinho ao amor-próprio disfarçado de respeito pelos outros.

Literatura – Sofisticado cruzadismo de aspirações expressionistas e recalcamentos impressionistas, que alimenta fornecedores de dicionários de sinónimos, mergulhadores que publicam Camões em blogs, E também acaba por ajudar as tipografias nos intervalos das promoções dos supermercados

Ter opiniões – Maravilha da sua condição só superada pela cárie dentária. Quem não se trata a tempo, acaba a trincar de postiço.

Arte Plásticas – No fundo é a actividade recomendada pelas principais marcas de máquinas. Basta não ter grande tendência para estar sempre a pôr a mão no nariz... ou será que já alguém também se lembrou de usar os burri.....blaargh!

Fazer piões – Quando não logra convencer ninguém ao simplesmente andar sereno e em frente, resta-lhe agarrar no travão de mão fornecido pela fábrica das aparências, e fingir que o bloqueio do diferencial da mente é uma opção de série, e o bloqueio da roda dos sentimentos um extra em promoção.

A Fama – O que transforma as parvoíces que uma pessoa diz em aforismos, e as suas unhas encravadas em cataclismos.

O Sucesso – A etiqueta que acompanha a fazenda, sonhada caxemira, que é tosquiada no rebanho que se pastoreia pelo hall de entrada da sua micro empresa.

A Integridade moral – Espécie de laca que garante um penteado certinho, mas não evita as tentadoras lêndeas.

O Carisma – Auréola de cânon difuso, boa para realçar um altar bem iluminado, e melhor adornado pelas genuflexões de turno.

A Fortuna – Cobertor aconchegante, mas que depois vai-se a ver, não passava duma irregular autorização de descoberto, que acaba por ser desmascarada na auditoria final a empresa e independente.

A Piada – Idolatria periodicamente repescada, que desperta e alimenta génios de polichinelo à base de esmolas esfregadas de riso.

A Inteligência – Limbo apanhado a brincar aos paraísos com os anjinhos que têm medo de ficar à entrada do purgatório.

A Cultura – Crosta reluzente que produz efeitos especiais ao reflectir prolixidades perante os olhos ávidos de esbugalhamento.

A Atracção “sexual” – Cheiro inebriante que destila o desejo alheio num alambique, e que afinal mais não faz que serpentear o corpo até à evaporação final. Não passam de gotas lambidas.

A Esperteza – Saracoteio de espinha, que põe as vértebras alinhadas a fazer de corrimão à ignorância.

A originalidade – Excreção que se podia limitar a filtrar os canais que transportam a respiração arrogante, mas que não resiste à tentação de ressequir, e permitir a sublimada mas sempre atraente coçadela de nariz

A Força – O que faz vender dinamómetros. Também embeleza ficha técnicas, provoca devoluções e atraiçoa garantias.

A mente brilhante – Emaranhada de fluorescências de filamento vaidoso, que à falta de melhor uso, sempre podem enfeitar uma árvore de natal, na casa de qualquer turco.

A Pessoa de Bem – Espécie de ungido, que deixa sempre um bocadinho de óleo sagrado a pingar, para lhe poderem limpar o beicinho

A Tristeza – Grande caloteira quando toca a pagar dívidas e, agora descubro, péssima esfregona quando há que apagar dúvidas.

Lágrima ao canto do olho – Esguicho tímido dum canal que, cheio de vergonha, nem irriga em condições, nem lhe despeja o esgoto da alma.

Olhos molhados – Estéril lubrificação, que na viscosidade que alimenta, só produz desfocagem e turvamentos. A visão torna-se pantanosa, e a sua drenagem faz-se directamente para o aterro da freguesia da desesperança.

Aperto no peito – Sintoma que, apesar de ter o consolo de não ser enfarte, têm o desconsolo de não passar com nenhum comprimidinho debaixo da língua.

Nó na garganta – Quando as amígdalas se roçam desavergonhadamente umas nas outras, e nem respirar se consegue em tamanho bacanal de inchaços, resta-lhe a secura dum reles engolir.

Falta de palavras – Como será sempre adolescente na tristeza, enluta constantemente alegres sentimentos, e o léxico fica anestesiado à base de epidurais produzidas com ramela de marca branca.

Tapar a cara – As mãos a encortinarem o rosto, é a melhor decoração quando as vistas só dão para um fardo de resíduos desgostosos.

Morder o lábio – Será sempre o sítio mais a jeito para trincar, desde que a língua se mantenha séria e recatada.

Espasmos de “mas porquê?” – Quando os músculos da alma não estavam preparados para os esticões do inesperado, nem para os saltos da incredulidade; não poucas vezes se engana com emplastros palavrosos.

Olhar vazio – Quando um ponto algures no infinito de turno, é o melhor cantinho onde pode repousar uma visão que já nada quer ver.

Tremer do queixo – Ao ritmo dessa compressora de sentimentos, deixa a flacidez da face entregue nas mãos de uma broca estúpida e insolente, que desfaz a pintura e só fura onde não se quer pendurar nenhum quadro

e...

A lição – Mas depois, quando repara que há alguém muito mais forte que ele, muito mais inteligente e muito mais nobre, inevitavelmente a sua tristeza terá de passar. É que a pior tristeza é a que faz de acólita à despedida. Ou de dama de honor, que segura no manto da falsa virgem da resignação

E gostava de poder dizer – enquanto se pode utilizar a expressão, claro! – que a tristeza “não vale um caracol”; a não ser que sejam guisados, e os ponhamos num folhado meio encruado, e embebido em molho esverdeado e morno a lembrar as cores do Sporting quando foi campeão. Bebe-se bem com um branco do norte da Borgonha. Hoje para tinto basta-me o sangue. Merda (lá vamos nos ser tratados como alcoólicos)

“Não ter provas” – Estado da natureza em que o argumento perde a piada e fica ao mesmo nível da verdade, se bem que vestindo das melhores marcas. Mas como agora parece que não se tem provas de nada, acabamos por ter de viver todos no bom estilo “À Pai Adão”. Uma boa parra às vezes vale mais que um fraldário de banalidades descartáveis

“Análise” – Termo a pedir divã, só que geralmente se perde nos bordados da fina colchoaria que o cobre. A “indigência intelectual” “os ataques de cooltura” é afinal a salvação de quem nada sabe desse ponto cruz.

“Insulto” – Verdadeira prova de que o “humanamente insuportável” apenas se aguenta, porque pensamos alegremente que há toneladas de malandros muito piores que nós e que precisam de ser devidamente postos no lugar.

“Desqualificação prévia do adversário” – Mais que óbvio imperativo da eficácia. De que vale termos as boas razões se depois perdemos no campeonato da fotogenia. Provar que o “parceiro” é um canastrão é meio caminho para termos razão, e para que o diafragma da verdade se nos abra de peito feito.

“Convicção própria” – Não vale um caracol. Se o valor das suas ideias devesse alguma coisa às suas convicções, passávamos os dias a passeá-las com trela curta, a dar-lhes banhinho, e a limpar-lhe as carraças.

“Argumentos de peso” – Aqueles que o ajudam a descer às profundezas, mas dos quais se têm de desfazer rapidamente se quiser vir respirar à superfície. E as sereias não se interessam por mergulhadores muito ataviados.

“Velhas formas de discussão” – Aquelas onde "arrear" já se sabia que era um elemento com que se tinha de contar. A masculinidade – ou será machililinidade ? – do fenómeno, mais não fazia que erradicar os riscos da sodomia da razão.

“A verdade que nos é dado presenciar” – Mal sabem que a verdade é uma gaja discreta, não se encontra em qualquer esquina, e muito menos dorme com gajos que pensam muito e citam Camões. Geralmente esses tipos esquecem-se da carteira em casa, porque julgam que fornicam fiado.

“Boa-fé” – Estado da natureza em que a prepotência duma qualquer flatulência mental se vende como propano de rica e fina combustão

“Má fé” – Estado da natureza em que não há combustão que não seja logo acusada de fogo posto. Poucos percebem que o “estado de fé” é uma apólice de seguro que, vai-se a ver, cobre muito poucos riscos.

Voto em branco – Apenas o corolário lógico duma estranha cegueira branca mal ensaiada.

Voto nulo – Quando uma folha de papel pode fazer as vezes duma montra Cartier

Voto de castidade – Apostar em não fornicar na esperança de não ser fornicado.

Voto expresso – Aquele que não se contenta em ser um reles café de encher o saco das presunções de legitimidade. Até porque os eleitos em votações implícitas acabam sempre por sufocar nas borras da dúvida.

Voto universal – Quando ao vermos todos fazerem o mesmo nos cria a ilusão de que todos valemos o mesmo.

Voto secreto – O que nos faz sentir importantes sem precisarmos de nos pôr em bicos dos pés

Voto de braço no ar – O consolo de quem não tem graveto para os leilões da moda. De qualquer forma convém ver se não lhe atribuem um número à entrada.

Voto directo – Aquele que aponta para o buraco, mal sabendo que vai passar o tempo a brincar às três tabelas.

Voto “mama” – Aquela ligeira protuberância do boletim (americano) que não chegou a furar, e que pôs Bush na presidência e alGore a dar conferências, acaba por ser uma interessante alternativa para os chamados indecisos: picam o boletim, mas não até ao fim, e deixam sempre a decisão para a rapaziada das contagens

Votos de felicidade – Os que sabem sempre bem, não precisam de ser muito mastigados, lambuzam-nos de fugacidade, não servem para nada, mas lembram-nos que foram “eleitos” para uma coisa qualquer.

Voto por correspondência – Quando a ranhura do nosso amor vive numa urna distante (esta foi só para dar uma nota erótica a esta coisa)

Votar (abster-se de) – A displicente indiferença feita ideologia. Dos que não se importam de beber uma meia-de-leite mesmo sabendo que ele foi mugido por mãos alheias.

Voto útil – O que nos transporta, qual tapete voador, para as encostas com as melhores vistas, enquanto o resto do pessoal fica a coleccionar postais ilustrados

Voto de veto – Uma espécie de voto beicinho, até porque um amuo também tem direito à sua dignidade

Mergulhadores em “espargata” – Forçam o músculo afastando até ao limite as extremidades, deixando o centro muito exposto e em risco de rasgamento, mas com a consolação de ficar tudo a olhar para eles a ver o que acontece. Aliviar é sempre a posição que se segue.

Vidas em “mortal encarpado” – Quando se quer deslumbrar, muitas vezes apalpamos primeiro o terreno numa geometria controlada e angulosa, porque não gostamos de esgotar todos os cartuxos na primeira caçada em campo aberto. É o compromisso entre o efeito suficiente e o risco necessário.

Viver a “fazer a ponte” – O equilíbrio é uma posição forçada, eventualmente bela, mas sempre de cansativa sustentação. Vende bem porque é muito protegida pelas figuras “obrigatórias”, mas os desfechos são sempre calamitosos.

Viver a “fazer o pino” – Ver tudo ao contrário é uma frágil sedução da sua condição. Demonstra que o aspecto é, muitas vezes, é uma simples ilusão de posição. E inverter o sentido das coisas não raramente é uma mera táctica medrosa de aproximação, disfarçada da viciosa originalidade.

Mergulhadores de “triplo mortal à retaguarda” – Quando querem deslumbrar pela exuberância e espectacularidade, muitas vezes vão para o lado em que todos menos esperam para que, se correr algo mal, terem sempre desculpa e, eventualmente, a canja ou os pachos quentes da mãezinha.

Vidas em “ flic-flac “ – Quando anda pela vida tocando nas coisas apenas fugazmente, tem sempre de ir arqueando de impulso para não ficar espalhado ao comprido e de peitaça virada para o criador. O rabito, vá lá, está sempre protegido.

Mergulhadores de “dupla pirueta” – Aqueles que pretendem ver o mundo todo duma só assentada e rodada, acabam por ter de se fixar num só um ponto para não marearem. Por isso é que muitos se especializam em pares (sócios) para terem sempre onde se agarrar.

Vidas de “Mortal esticado” – Quando não se contentam com uma acrobacia simples, e precisam também de ir ocupar o espaço dos outros, fazendo-os sentir que éramos nós que lá devíamos estar.

E acabo pensando que: Gente assim não devia existir, com gente assim e mesmo muito difícil!

Esperemos que o nosso amigo (can. trin ou talves Cândido Trindade, ou agora merg prof, ou no forum Shark, mas até a data sempre zetazeta4@hotmail.com, não tenha mais ataques de cooltura.

Já que não respeita os mergulhadores, pelo menos, respeite CAMÔES!

25/05/2004

A arte de adiar

Às vezes os problemas existenciais são tão pertinentes que é preciso deixá-los em paz. Às vezes as questões escondidas em aspectos do dia-a-dia são tão importantes que é preciso deixá-las em paz.
Porque nem sempre se pode resolver alguma coisa, porque nem sempre se pode alterar o curso das coisas. Porque uns dias não temos capacidade de análise ou modificação da direcção que levamos e, portanto, é preciso viver o momento naquilo que não tem de futuro... Porque é bom abraçar o que há para não se sentir o vazio do abraço no ar. Porque é bom sentir o acabado, o encontrado e o achado ainda antes de tudo questionar.


24/05/2004

MAIL RECEBIDO, MAIL PUBLICADO
AGRADEÇO DE FUTURO, QUE DIGAM SE QUEREM QUE OS VOSSOS MAILS SEJAM PUBLICADOS POIS POR VEZES FICAMOS SEM SABER SE QUEREM QUE SE PUBLIQUE, OU É SÓ PARA INFORMAR O BLOG.



X-Sender: zetazeta4@hotmail.com
From: "merg. prof." To: xaputa@lycos.com
Bcc:
Subject: MORALISTAS AO PHODER
Date: Sun, 23 May 2004 19:22:08 +0000


OS MORALISTAS AO PHODER ....

Como se pode falar de bombeiros no mergulho profissional quando há certas
empresas que trabalháram varios anos com bombeiros como por explo :
Oceanario de lisboa

E falar mal de eng. e responsaveis de obras ,quando nao se ganha uma obra
de mergulho faz anos (será falta de capacidade ou dor de corno ? )

AGORA TAMBEM ME DEU A MIM UM ATAQUE DE COOLTURA



Os Lusíadas


Canto I



1
AS armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

4
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.

5
Dai-me ũa fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.

6
E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande;

7
Vós, tenro e novo ramo florecente
De ũa árvore, de Cristo mais amada
Que nenhua nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas e deixou
As que Ele pera si na Cruz tomou);

8
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando dece o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco Oriental e do Gentio
Que inda bebe o licor do santo Rio:

9
Inclinai por um pouco a majestade
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.

10
Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quási eterno;
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

11
Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas
Que excedem as sonhadas, fabulosas,
Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro
E Orlando, inda que fora verdadeiro.

12
Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço,
Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero
A cítara par' eles só cobiço;
Pois polos Doze Pares dar-vos quero
Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço;
Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.

13
Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
Ou de César, quereis igual memória,
Vede o primeiro Afonso, cuja lança
Escura faz qualquer estranha glória;
E aquele que a seu Reino a segurança
Deixou, com a grande e próspera vitória;
Outro Joane, invicto cavaleiro;
O quarto e quinto Afonsos e o terceiro.

14
Nem deixarão meus versos esquecidos
Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
Se fizeram por armas tão subidos,
Vossa bandeira sempre vencedora:
Um Pacheco fortíssimo e os temidos
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora,
Albuquerque terríbil, Castro forte,
E outros em quem poder não teve a morte.

15
E, enquanto eu estes canto – e a vós não posso,
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto –,
Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
(Que polo mundo todo faça espanto)
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras e do Oriente os mares.

16
Em vós os olhos tem o Mouro frio,
Em quem vê seu exício afigurado;
Só com vos ver, o bárbaro Gentio
Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
Tétis todo o cerúleo senhorio
Tem pera vós por dote aparelhado,
Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro,
Deseja de comprar-vos pera genro.

17
Em vós se vêm, da Olímpica morada,
Dos dous avós as almas cá famosas;
Ũa, na paz angélica dourada,
Outra, pelas batalhas sanguinosas.
Em vós esperam ver-se renovada
Sua memória e obras valerosas;
E lá vos têm lugar, no fim da idade,
No templo da suprema Eternidade.

18
Mas, enquanto este tempo passa lento
De regerdes os povos, que o desejam,
Dai vós favor ao novo atrevimento,
Pera que estes meus versos vossos sejam,
E vereis ir cortando o salso argento
Os vossos Argonautas, por que vejam
Que são vistos de vós no mar irado,
E costumai-vos já a ser invocado.

19
Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteu são cortadas,

20
Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em consílio glorioso,
Sobre as cousas futuras do Oriente.
Pisando o cristalino Céu fermoso,
Vêm pela Via Láctea juntamente,
Convocados, da parte de Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.

21
Deixam dos sete Céus o regimento,
Que do poder mais alto lhe foi dado,
Alto poder, que só co pensamento
Governa o Céu, a Terra e o Mar irado.
Ali se acharam juntos num momento
Os que habitam o Arcturo congelado
E os que o Austro têm e as partes onde
A Aurora nasce e o claro Sol se esconde.

22
Estava o Padre ali, sublime e dino,
Que vibra os feros raios de Vulcano,
Num assento de estrelas cristalino,
Com gesto alto, severo e soberano;
Do rosto respirava um ar divino,
Que divino tornara um corpo humano;
Com ũa coroa e ceptro rutilante,
De outra pedra mais clara que diamante.

23
Em luzentes assentos, marchetados
De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
Os outros Deuses, todos assentados
Como a Razão e a Ordem concertavam
(Precedem os antigos, mais honrados,
Mais abaixo os menores se assentavam);
Quando Júpiter alto, assi dizendo,
Cum tom de voz começa grave e horrendo:

24
– «Eternos moradores do luzente,
Estelífero Pólo e claro Assento:
Se do grande valor da forte gente
De Luso não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente
Como é dos Fados grandes certo intento
Que por ela se esqueçam os humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.

25
«Já lhe foi (bem o vistes) concedido,
Cum poder tão singelo e tão pequeno,
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Pois contra o Castelhano tão temido
Sempre alcançou favor do Céu sereno:
Assi que sempre, enfim, com fama e glória,
Teve os troféus pendentes da vitória.

26
«Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
Que co a gente de Rómulo alcançaram,
Quando com Viriato, na inimiga
Guerra Romana, tanto se afamaram;
Também deixo a memória que os obriga
A grande nome, quando alevantaram
Um por seu capitão, que, peregrino,
Fingiu na cerva espírito divino.

27
«Agora vedes bem que, cometendo
O duvidoso mar num lenho leve,
Por vias nunca usadas, não temendo
de Áfrico e Noto a força, a mais s'atreve:
Que, havendo tanto já que as partes vendo
Onde o dia é comprido e onde breve,
Inclinam seu propósito e perfia
A ver os berços onde nasce o dia.

28
«Prometido lhe está do Fado eterno,
Cuja alta lei não pode ser quebrada,
Que tenham longos tempos o governo
Do mar que vê do Sol a roxa entrada.
Nas águas têm passado o duro Inverno;
A gente vem perdida e trabalhada;
Já parece bem feito que lhe seja
Mostrada a nova terra que deseja.

29
«E porque, como vistes, têm passados
Na viagem tão ásperos perigos,
Tantos climas e céus exprimentados,
Tanto furor de ventos inimigos,
Que sejam, determino, agasalhados
Nesta costa Africana como amigos;
E, tendo guarnecido a lassa frota,
Tornarão a seguir sua longa rota.»

30
Estas palavras Júpiter dizia,
Quando os Deuses, por ordem respondendo,
Na sentença um do outro diferia,
Razões diversas dando e recebendo.
O padre Baco ali não consentia
No que Júpiter disse, conhecendo
Que esquecerão seus feitos no Oriente
Se lá passar a Lusitana gente.

31
Ouvido tinha aos Fados que viria
Ũa gente fortíssima de Espanha
Pelo mar alto, a qual sujeitaria
Da Índia tudo quanto Dóris banha,
E com novas vitórias venceria
A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.
Altamente lhe dói perder a glória
De que Nisa celebra inda a memória.
32
Vê que já teve o Indo sojugado
E nunca lhe tirou Fortuna ou caso
Por vencedor da Índia ser cantado
De quantos bebem a água de Parnaso.
Teme agora que seja sepultado
Seu tão célebre nome em negro vaso
D' água do esquecimento, se lá chegam
Os fortes Portugueses que navegam.

33
Sustentava contra ele Vénus bela,
Afeiçoada à gente Lusitana
Por quantas qualidades via nela
Da antiga, tão amada, sua Romana;
Nos fortes corações, na grande estrela
Que mostraram na terra Tingitana,
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina.
34
Estas causas moviam Citereia,
E mais, porque das Parcas claro entende
Que há-de ser celebrada a clara Deia
Onde a gente belígera se estende.
Assi que, um, pela infâmia que arreceia,
E o outro, pelas honras que pretende,
Debatem, e na perfia permanecem;
A qualquer seus amigos favorecem.

35
Qual Austro fero ou Bóreas na espessura
De silvestre arvoredo abastecida,
Rompendo os ramos vão da mata escura
Com impeto e braveza desmedida,
Brama toda montanha, o som murmura,
Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
Tal andava o tumulto, levantado
Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.
36
Mas Marte, que da Deusa sustentava
Entre todos as partes em porfia,
Ou porque o amor antigo o obrigava,
Ou porque a gente forte o merecia,
De antre os Deuses em pé se levantava:
Merencório no gesto parecia;
O forte escudo, ao colo pendurado,
Deitando pera trás, medonho e irado;

37
A viseira do elmo de diamante
Alevantando um pouco, mui seguro,
Por dar seu parecer se pôs diante
De Júpiter, armado, forte e duro;
E dando ũa pancada penetrante
Co conto do bastão no sólio puro,
O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
Um pouco a luz perdeu, como enfiado;
38
E disse assi: – «Ó Padre, a cujo império
Tudo aquilo obedece que criaste:
Se esta gente que busca outro Hemisfério,
Cuja valia e obras tanto amaste,
Não queres que padeçam vitupério,
Como há já tanto tempo que ordenaste,
Não ouças mais, pois és juiz direito,
Razões de quem parece que é suspeito.

39
«Que, se aqui a razão se não mostrasse
Vencida do temor demasiado,
Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
Pois que de Luso vêm, seu tão privado;
Mas esta tenção sua agora passe,
Porque enfim vem de estâmago danado;
Que nunca tirará alheia enveja
O bem que outrem merece e o Céu deseja.
40
«E tu, Padre de grande fortaleza,
Da determinação que tens tomada
Não tornes por detrás, pois é fraqueza
Desistir-se da cousa começada.
Mercúrio, pois excede em ligeireza
Ao vento leve e à seta bem talhada,
Lhe vá mostrar a terra onde se informe
Da Índia, e onde a gente se reforme.»

41
Como isto disse, o Padre poderoso,
A cabeça inclinando, consentiu
No que disse Mavorte valeroso
E néctar sobre todos esparziu.
Pelo caminho Lácteo glorioso
Logo cada um dos Deuses se partiu,
Fazendo seus reais acatamentos,
Pera os determinados apousentos.
42
Enquanto isto se passa na fermosa
Casa etérea do Olimpo omnipotente,
Cortava o mar a gente belicosa
Já lá da banda do Austro e do Oriente,
Entre a costa Etiópica e a famosa
Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
Queimava então os Deuses que Tifeu
Co temor grande em pexes converteu.

43
Tão brandamente os ventos os levavam
Como quem o Céu tinha por amigo;
Sereno o ar e os tempos se mostravam,
Sem nuvens, sem receio de perigo.
O promontório Prasso já passavam
Na costa de Etiópia, nome antigo,
Quando o mar, descobrindo, lhe mostrava
Novas ilhas, que em torno cerca e lava.
44
Vasco da Gama, o forte Capitão,
Que a tamanhas empresas se oferece,
De soberbo e de altivo coração,
A quem Fortuna sempre favorece,
Pêra se aqui deter não vê razão,
Que inabitada a terra lhe parece.
Por diante passar determinava,
Mas não lhe sucedeu como cuidava.

45
Eis aparecem logo em companhia
Uns pequenos batéis, que vêm daquela
Que mais chegada à terra parecia,
Cortando o longo mar com larga vela.
A gente se alvoroça e, de alegria,
Não sabe mais que olhar a causa dela.
– «Que gente será esta? » (em si diziam)
«Que costumes, que Lei, que Rei teriam?»
46
As embarcações eram na maneira
Mui veloces, estreitas e compridas;
As velas com que vêm eram de esteira,
Dũas folhas de palma, bem tecidas;
A gente da cor era verdadeira
Que Fáëton, nas terras acendidas,
Ao mundo deu, de ousado e não prudente
(O Pado o sabe e Lampetusa o sente).

47
De panos de algodão vinham vestidos,
De várias cores, brancos e listrados;
Uns trazem derredor de si cingidos,
Outros em modo airoso sobraçados;
Das cintas pêra cima vêm despidos;
Por armas têm adagas e tarçados;
Com toucas na cabeça; e, navegando,
Anafis sonorosos vão tocando.
48
Cos panos e cos braços acenavam
Às gentes Lusitanas, que esperassem;
Mas já as proas ligeiras se inclinavam,
Pera que junto às Ilhas amainassem.
A gente e marinheiros trabalhavam
Como se aqui os trabalhos s' acabassem:
Tomam velas, amaina-se a verga alta,
Da âncora o mar ferido em cima salta.

49
Não eram ancorados, quando a gente
Estranha polas cordas já subia.
No gesto ledos vêm, e humanamente
O Capitão sublime os recebia.
As mesas manda pôr em continente;
Do licor que Lieu prantado havia
Enchem vasos de vidro; e do que deitam
Os de Fáeton queimados nada enjeitam.
50
Comendo alegremente, perguntavam,
Pela Arábica língua, donde vinham,
Quem eram, de que terra, que buscavam,
Ou que partes do mar corrido tinham?
Os fortes Lusitanos lhe tornavam
As discretas repostas que convinham:
– «Os Portugueses somos do Ocidente,
Imos buscando as terras do Oriente.

51
«Do mar temos corrido e navegado
Toda a parte do Antártico e Calisto,
Toda a costa Africana rodeado;
Diversos céus e terras temos visto;
Dum Rei potente somos, tão amado,
Tão querido de todos e benquisto,
Que não no largo mar, com leda fronte,
Mas no lago entraremos de Aqueronte.
52
«E, por mandado seu, buscando andamos
A terra Oriental que o Indo rega;
Por ele o mar remoto navegamos,
Que só dos feios focas se navega.
Mas já razão parece que saibamos
(Se entre vós a verdade não se nega),
Quem sois, que terra é esta que habitais,
Ou se tendes da Índia alguns sinais?»

53
– «Somos (um dos das Ilhas lhe tornou)
Estrangeiros na terra, Lei e nação;
Que os próprios são aqueles que criou
A Natura, sem Lei e sem Razão.
Nós temos a Lei certa que ensinou
O claro descendente de Abraão,
Que agora tem do mundo o senhorio;
A mãe Hebreia teve e o pai, Gentio.
54
«Esta Ilha pequena, que habitamos,
É em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos,
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
E, por ser necessária, procuramos,
Como próprios da terra, de habitá-la;
E por que tudo enfim vos notifique,
Chama-se a pequena Ilha – Moçambique.

55
«E já que de tão longe navegais,
Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
Piloto aqui tereis, por quem sejais
Guiados pelas ondas sàbiamente.
Também será bem feito que tenhais
Da terra algum refresco, e que o Regente
Que esta terra governa, que vos veja
E do mais necessário vos proveja.»
56
Isto dizendo, o Mouro se tornou
A seus batéis com toda a companhia;
Do Capitão e gente se apartou
Com mostras de devida cortesia.
Nisto Febo nas águas encerrou
Co carro de cristal, o claro dia,
Dando cargo à Irmã que alumiasse
O largo mundo, enquanto repousasse.

57
A noite se passou na lassa frota
Com estranha alegria e não cuidada,
Por acharem da terra tão remota
Nova de tanto tempo desejada.
Qualquer então consigo cuida e nota
Na gente e na maneira desusada,
E como os que na errada Seita creram,
Tanto por todo o mundo se estenderam.
58
Da Lũa os claros raios rutilavam
Polas argênteas ondas Neptuninas;
As Estrelas os Céus acompanhavam,
Qual campo revestido de boninas;
Os furiosos ventos repousavam
Polas covas escuras peregrinas;
Porém da armada a gente vigiava,
Como por longo tempo costumava.

59
Mas, assi como a Aurora marchetada
Os fermosos cabelos espalhou
No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
Ao claro Hiperiónio, que acordou,
Começa a embandeirar-se toda a armada
E de toldos alegres se adornou,
Por receber com festas e alegria
O Regedor das Ilhas, que partia.
60
Partia, alegremente navegando,
A ver as naus ligeiras Lusitanas,
Com refresco da terra, em si cuidando
Que são aquelas gentes inumanas
Que, os apousentos Cáspios habitando,
A conquistar as terras Asianas
Vieram e, por ordem do Destino,
O Império tomaram a Costantino.

61
Recebe o Capitão alegremente
O Mouro e toda sua companhia;
Dá-lhe de ricas peças um presente,
Que só pera este efeito já trazia;
Dá-lhe conserva doce e dá-lhe o ardente,
Não usado licor, que dá alegria.
Tudo o Mouro contente bem recebe,
E muito mais contente come e bebe.
62
Está a gente marítima de Luso
Subida pela enxárcia, de admirada,
Notando o estrangeiro modo e uso
E a linguagem tão bárbara e enteada.
Também o Mouro astuto está confuso,
Olhando a cor, o trajo e a forte armada;
E, perguntando tudo, lhe dizia
Se porventura vinham de Turquia.

63
E mais lhe diz também que ver deseja
Os livros de sua Lei, preceito ou fé,
Pera ver se conforme à sua seja,
Ou se são dos de Cristo, como crê;
E por que tudo note e tudo veja,
Ao Capitão pedia que lhe dê
Mostra das fortes armas de que usavam
Quando cos inimigos pelejavam.
64
Responde o valeroso Capitão,
Por um que a língua escura bem sabia:
– «Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
De mi, da Lei, das armas que trazia.
Nem sou da terra, nem da geração
Das gentes enojosas de Turquia,
Mas sou da forte Europa belicosa;
Busco as terras da Índia tão famosa.

65
«A Lei tenho d' Aquele a cujo império
Obedece o visíbil e invisíbil,
Aquele que criou todo o Hemisfério,
Tudo o que sente e todo o insensíbil;
Que padeceu desonra e vitupério,
Sofrendo morte injusta e insofríbil,
E que do Céu à Terra enfim deceu,
Por subir os mortais da Terra ao Céu.
66
«Deste Deus-Homem, alto e infinito,
Os livros que tu pedes não trazia,
Que bem posso escusar trazer escrito
Em papel o que na alma andar devia.
Se as armas queres ver, como tens dito,
Cumprido esse desejo te seria;
Como amigo as verás, porque eu me obrigo
Que nunca as queiras ver como inimigo.»

67
Isto dizendo, manda os diligentes
Ministros amostrar as armaduras:
Vêm arneses e peitos reluzentes,
Malhas finas e lâminas seguras,
Escudos de pinturas diferentes,
Pelouros, espingardas de aço puras,
Arcos e sagitíferas aljavas,
Partazanas agudas, chuças bravas.
68
As bombas vêm de fogo, e juntamente
As panelas sulfúreas, tão danosas;
Porém aos de Vulcano não consente
Que dêm fogo às bombardas temerosas;
Porque o generoso ânimo e valente,
Entre gentes tão poucas e medrosas,
Não mostra quanto pode; e com razão,
Que é fraqueza entre ovelhas ser lião.

69
Porém disto que o Mouro aqui notou,
E de tudo o que viu com olho atento,
Um ódio certo na alma lhe ficou,
Ũa vontade má de pensamento;
Nas mostras e no gesto o não mostrou,
Mas, com risonho e ledo fingimento,
Tratá-los brandamente determina,
Até que mostrar possa o que imagina.
70
Pilotos lhe pedia o Capitão,
Por quem pudesse à Índia ser levado;
Diz-lhe que o largo prémio levarão
Do trabalho que nisso for tomado.
Promete-lhos o Mouro, com tenção
De peito venenoso e tão danado
Que a morte, se pudesse, neste dia,
Em lugar de pilotos lhe daria.

71
Tamanho o ódio foi e a má vontade
Que aos estrangeiros súpito tomou,
Sabendo ser sequaces da Verdade
Que o filho de David nos ensinou!
Ó segredos daquela Eternidade
A quem juízo algum não alcançou:
Que nunca falte um pérfido inimigo
Àqueles de quem foste tanto amigo!
72
Partiu-se nisto, enfim, co a companhia,
Das naus o falso Mouro despedido,
Com enganosa e grande cortesia,
Com gesto ledo a todos e fingido.
Cortaram os batéis a curta via
Das águas de Neptuno; e, recebido
Na terra do obseqüente ajuntamento,
Se foi o Mouro ao cógnito apousento.

73
Do claro Assento etéreo, o grão Tebano,
Que da paternal coxa foi nascido,
Olhando o ajuntamento Lusitano
Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
No pensamento cuida um falso engano,
Com que seja de todo destruído;
E, enquanto isto só na alma imaginava,
Consigo estas palavras praticava:
74
– «Está do Fado já determinado
Que tamanhas vitórias, tão famosas,
Hajam os Portugueses alcançado
Das Indianas gentes belicosas;
E eu só, filho do Padre sublimado,
Com tantas qualidades generosas,
Hei-de sofrer que o Fado favoreça
Outrem, por quem meu nome se escureça?

75
«Já quiseram os Deuses que tivesse
O filho de Filipo nesta parte
Tanto poder que tudo sometesse
Debaixo do seu jugo o fero Marte;
Mas há-se de sofrer que o Fado desse
A tão poucos tamanho esforço e arte,
Qu' eu, co grão Macedónio e Romano,
Dêmos lugar ao nome Lusitano?
76
«Não será assi, porque, antes que chegado
Seja este Capitão, astutamente
Lhe será tanto engano fabricado
Que nunca veja as partes do Oriente.
Eu decerei à Terra e o indignado
Peito revolverei da Maura gente;
Porque sempre por via irá direita
Quem do oportuno tempo se aproveita.»

77
Isto dizendo, irado e quási insano,
Sobre a terra Africana descendeu,
Onde, vestindo a forma e gesto humano,
Pera o Prasso sabido se moveu.
E, por milhor tecer o astuto engano,
No gesto natural se converteu
Dum Mouro, em Moçambique conhecido,
Velho, sábio, e co Xeque mui valido.
78
E, entrando assi a falar-lhe, a tempo e horas,
A sua falsidade acomodadas,
Lhe diz como eram gentes roubadoras
Estas que ora de novo são chegadas;
Que das nações na costa moradoras,
Correndo a fama veio que roubadas
Foram por estes homens que passavam,
Que com pactos de paz sempre ancoravam.

79
– «E sabe mais (lhe diz), como entendido
Tenho destes Cristãos sanguinolentos,
Que quási todo o mar têm destruído
Com roubos, com incêndios violentos;
E trazem já de longe engano urdido
Contra nós; e que todos seus intentos
São pera nos matarem e roubarem,
E mulheres e filhos cativarem.
80
«E também sei que tem determinado
De vir por água a terra, muito cedo,
O Capitão, dos seus acompanhado,
Que da tenção danada nasce o medo.
Tu deves de ir também cos teus armado
Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
Porque, saindo a gente descuidada,
Caïrão facilmente na cilada.

81
«E se inda não ficarem deste jeito
Destruídos ou mortos totalmente,
Eu tenho imaginada no conceito
Outra manha e ardil que te contente:
Manda-lhe dar piloto que de jeito
Seja astuto no engano, e tão prudente
Que os leve aonde sejam destruídos,
Desbaratados, mortos ou perdidos.»
82
Tanto que estas palavras acabou
O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
Os braços pelo colo lhe lançou,
Agradecendo muito o tal conselho;
E logo nesse instante concertou
Pera a guerra o belígero aparelho,
Pera que ao Português se lhe tornasse
Em roxo sangue a água que buscasse.

83
E busca mais, pera o cuidado engano,
Mouro que por piloto à nau lhe mande,
Sagaz, astuto e sábio em todo o dano,
De quem fiar se possa um feito grande.
Diz-lhe que, acompanhando o Lusitano,
Por tais costas e mares co ele ande,
Que, se daqui escapar, que lá diante
Vá cair onde nunca se alevante.
84
Já o raio Apolíneo visitava
Os Montes Nabateios acendido,
Quando Gama cos seus determinava
De vir por água a terra apercebido.
A gente nos batéis se concertava
Como se fosse o engano já sabido;
Mas pôde suspeitar-se fàcilmente,
Que o coração pres[s]ago nunca mente.

85
E mais também mandado tinha a terra,
De antes, pelo piloto necessário,
E foi-lhe respondido em som de guerra,
Caso do que cuidava mui contrário.
Por isto, e porque sabe quanto erra
Quem se crê de seu pérfido adversário,
Apercebido vai como podia
Em três batéis sòmente que trazia.
86
Mas os Mouros, que andavam pela praia
Por lhe defender a água desejada,
Um de escudo embraçado e de azagaia,
Outro de arco encurvado e seta ervada,
Esperam que a guerreira gente saia,
Outros muitos já postos em cilada;
E, por que o caso leve se lhe faça,
Põem uns poucos diante por negaça.

87
Andam pela ribeira alva, arenosa,
Os belicosos Mouros acenando
Com a adarga e co a hástea perigosa,
Os fortes Portugueses incitando.
Não sofre muito a gente generosa
Andar-lhe os Cães os dentes amostrando;
Qualquer em terra salta, tão ligeiro,
Que nenhum dizer pode que é primeiro:
88
Qual no corro sanguino o ledo amante,
Vendo a fermosa dama desejada,
O touro busca e, pondo-se diante,
Salta, corre, sibila, acena e brada,
Mas o animal atroce, nesse instante,
Com a fronte cornígera inclinada,
Bramando, duro corre e os olhos cerra,
Derriba, fere e mata e põe por terra.

89
Eis nos batéis o fogo se levanta
Na furiosa e dura artelharia;
A plúmbea péla mata, o brado espanta;
Ferido, o ar retumba e assovia.
O coração dos Mouros se quebranta,
O temor grande o sangue lhe resfria.
Já foge o escondido, de medroso,
E morre o descoberto aventuroso.
90
Não se contenta a gente Portuguesa,
Mas, seguindo a vitória, estrui e mata;
A povoação sem muro e sem defesa
Esbombardeia, acende e desbarata.
Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
Que bem cuidou comprá-la mais barata;
Já blasfema da guerra, e maldizia,
O velho inerte e a mãe que o filho cria.

91
Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
Sem força, de covarde e de apressado,
A pedra, o pau e o canto arremessando;
Dá-lhe armas o furor desatinado.
Já a Ilha, e todo o mais, desamparando,
À terra firme foge amedrontado;
Passa e corta do mar o estreito braço
Que a Ilha em torno cerca em pouco espaço.
92
Uns vão nas almadias carregadas,
Um corta o mar a nado, diligente;
Quem se afoga nas ondas encurvadas,
Quem bebe o mar e o deita juntamente.
Arrombam as miúdas bombardadas
Os pangaios sutis da bruta gente.
Destarte o Português, enfim, castiga
A vil malícia, pérfida, inimiga.

93
Tornam vitoriosos pera a armada,
Co despojo da guerra e rica presa,
E vão a seu prazer fazer aguada,
Sem achar resistência nem defesa.
Ficava a Maura gente magoada,
No ódio antigo mais que nunca acesa;
E, vendo sem vingança tanto dano,
Sòmente estriba no segundo engano.
94
Pazes cometer manda, arrependido,
O Regedor daquela inica terra,
Sem ser dos Lusitanos entendido
Que em figura de paz lhe manda guerra;
Porque o piloto falso prometido,
Que toda a má tenção no peito encerra,
Pera os guiar à morte lhe mandava,
Como em sinal das pazes que tratava.

95
O Capitão, que já lhe então convinha
Tornar a seu caminho acostumado,
Que tempo concertado e ventos tinha
Pera ir buscar o Indo desejado,
Recebendo o piloto que lhe vinha,
Foi dele alegremente agasalhado,
E respondendo ao mensageiro, a tento,
As velas manda dar ao largo vento.
96
Destarte despedida, a forte armada
As ondas de Anfitrite dividia,
Das filhas de Nereu acompanhada,
Fiel, alegre e doce companhia.
O Capitão, que não cala em nada
Do enganoso ardil que o Mouro urdia,
Dele mui largamente se informava
Da Índia toda e costas que passava.

97
Mas o Mouro, instruído nos enganos
Que o malévolo Baco lhe ensinara,
De morte ou cativeiro novos danos,
Antes que à Índia chegue, lhe prepara.
Dando razão dos portos Indianos,
Também tudo o que pede lhe declara,
Que, havendo por verdade o que dizia,
De nada a forte gente se temia.
98
E diz-lhe mais, co falso pensamento
Com que Sínon os Frígios enganou,
Que perto está ũa Ilha, cujo assento
Povo antigo Cristão sempre habitou.
O Capitão, que a tudo estava atento,
Tanto co estas novas se alegrou
Que com dádivas grandes lhe rogava
Que o leve à terra onde esta gente estava.

99
O mesmo o falso Mouro determina
Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
Que a Ilha é possuída da malina
Gente que segue o torpe Mahamede.
Aqui o engano e morte lhe imagina,
Porque em poder e forças muito excede
À Moçambique esta Ilha, que se chama
Quíloa, mui conhecida pola fama.
100
Pera lá se inclinava a leda frota;
Mas a Deusa em Citere celebrada,
Vendo como deixava a certa rota
Por ir buscar a morte não cuidada,
Não consente que em terra tão remota
Se perca a gente dela tanto amada,
E com ventos contrairos a desvia
Donde o piloto falso a leva e guia.

101
Mas o malvado Mouro, não podendo
Tal determinação levar avante,
Outra maldade inica cometendo,
Ainda em seu propósito constante,
Lhe diz que, pois as águas, discorrendo,
Os levaram por força por diante,
Que outra Ilha tem perto, cuja gente
Eram Cristãos com Mouros juntamente.
102
Também nestas palavras lhe mentia,
Como por regimento, enfim, levava;
Que aqui gente de Cristo não havia,
Mas a que a Mahamede celebrava.
O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
Virando as velas, a Ilha demandava;
Mas, não querendo a Deusa guardadora,
Não entra pela barra, e surge fora.

103
Estava a Ilha à terra tão chegada
Que um estreito pequeno a dividia;
Ũa cidade nela situada,
Que na fronte do mar aparecia,
De nobres edifícios fabricada,
Como por fora, ao longe, descobria,
Regida por um Rei de antiga idade:
Mombaça é o nome da Ilha e da cidade.
104
E sendo a ela o Capitão chegado,
Estranhamente ledo, porque espera
De poder ver o povo baptizado,
Como o falso piloto lhe dissera,
Eis vêm batéis da terra com recado
Do Rei, que já sabia a gente que era;
Que Baco muito de antes o avisara,
Na forma doutro Mouro, que tomara.

105
O recado que trazem é de amigos,
Mas debaxo o veneno vem coberto,
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos,
Ó caminho de vida nunca certo,
Que aonde a gente põe sua esperança
Tenha a vida tão pouca segurança!
106
No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?






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NOTAS

1.1
"As armas e os barões assinalados": desde o primeiro verso o Poeta revela o
seu grande inspirador, Virgílio: "arma virumque cano..." (hendíadis).
Camões rejeitou o emprego pouco expressivo da forma correspondente a vir e
adoptou 'barão' (já usado na Idade Média – barom e varom – no sentido de
vir). 'Barões' não foi escolhido apenas para designar o indivíduo do sexo
masculino, mas homem ilustre e esforçado (título nobiliárquico,
provavelmente do germ. Baro: 'homem livre, apto para a luta', aparentado com
o escand. ant. beriask: 'pelejar' segundo Corominas, s. v. 'Barón'). Camões
aplicou o termo mesmo a S. Tomé, 'barão sagrado' (X.108.7). No poema a forma
'barão' alterna com 'varão', embora esta seja usada com menos frequência (v.
VI.37.4, IX.91.3 e X.7.2). ED escreveu sempre 'barão' na sua ed. de Os
Lusíadas. Gaspar Barreiros, na sua Chorographia, fl. 197 v.º, escreve:
"Nicolao Leoniceno, doctissimo baram" e "Nunca fama de baram illustre, por
mais celebrado que fosse, teve tal fortuna (Hércules)".

1.2
"Que da ocidental praia lusitana": isto é, de Portugal. O emprego
'ocidental' reforça a situação geográfica de 'praia lusitana'. Camões chama
aos Portugueses 'Lusitanos' (e, frequentemente, 'os de Luso'). A que época
remonta o uso deste etnónimo? TB, na obra Camões, a Obra Lírica e Épica, p.
401, citando Herculano, Hist. de Portugal, t. I, 10, lembra o discurso
latino recitado pelo bispo D. Garcia de Meneses em 1481 diante de Sisto IV
(e do célebre humanista Pompónio Leto). Luís Anriques, poeta do Cancioneiro
Geral, no sua "Lamentação à morte del rei D. João" (II) (GG, III, 65-68),
emprega Lusitânia e lusitanos. Mas muito antes, no chamada Crónica de Cinco
Reis (de 1419), escreveu-se no cap. xv: "... e quando o prior de S.ta Cruz a
que chamavao D. Theotonio ... vio que lhe tomaraõ aquelle lugar que lhe
elrei D. A.º avia dado ouve em grande pesar & se partio do m ro [mosteiro] e
foisse as terras de Lusitania que os mouros possuiaõ e andou tanto ateesque
filhou arrõches." [Duarte Galvão, que copiou este (e outros capítulos),
substituiu 'Lusitânia' por 'Alentejo'.] Sobre a origem de 'Lusitânia' v.
VIII.2.7-8.
Ort.: valeroso (por valoroso).

1.3
"Por mares nunca de antes navegados": cf. I.27.3: 'Por vias nunca usadas';
II.45.8: 'Novos mundos ao mundo irão mostrando'; V.4.1-2: 'Assi fomos
abrindo aqueles mares / que geração algua não abriu'; V.37.3: 'cortando / os
mares nunca d’outrem navegados'; V.41.8: 'Nunca arados d’estranho ou próprio
lenho'; V.66.3: 'No largo mar fazendo novas vias'; VII.25.5-6: 'Abrindo, lhe
responde, o mar profundo, / Por onde nunca veio gente humana'; VII.30.7:
'Por mares nunca d'outro lenho arados'; VIII.4.6: 'Despois de ter tão largo
mar arado'; IX.86.5-7. 'Para lhe descobrir da unida Esfera / Da terra imensa
e mar não navegado / Os segredos ...'; X.138.3: 'Abrindo a porta ao vasto
mar patente'. A grandeza do feito está evidenciada nesta ideia mestra, tão
insistentemente repetida.

1.4-7
"Passaram ainda além da Taprobana" (por Tapróbana): identificada com a ilha
de Ceilão (v. X.107.4 e X.51.1). Barros, na 3.ª Década, liv. II, enuncia
assim o seu cap. I: Em que se descreve o sitio & cousas da ilha Ceilão a que
os antigos chamão Taprobana; "E entre gente remota edificaram": sobre a
conservação da copulativa inicial no v. 7 ('E entre gente'), e não no v. 5
('Em perigos'), v. JMR, em BCL, vol. XIII, pp. 724 a 728.

2.3-7
"... e as terras viciosas": terras corrompidas (na fé). O sentido
esclarece-se pelos vv. de VII.17.6-7: "... alguns o vicioso / Mahoma...";
"De África e de Ásia andaram devastando": assolando, destruindo, arruinando;
"Se vão da lei da morte libertando": da lei do esquecimento; "... espalharei
por toda parte": Camões emprega indiferentemente 'por toda parte' e 'por
toda a parte'. Usa 'toda parte' em I.2.7, em IV.15.4, em IV.25.7, em
IV.84.8, em VIII.89.3 e em X.67.3; e 'toda a parte' em I.51.2, em II.37.7,
em III.51.6, em III.79.8, em IX.77.6 e em X.67.3. Em X.78.7 diz por duas
vezes: "Por toda a parte tem, e em toda a parte [Começa e acaba ... ]".

3.1
"Cessem do sábio grego e do Troiano": o sábio grego é Ulisses, cujo longo e
aventuroso regresso a Ítaca faz o assunto da Odisseia. Na Ilíada e na
Odisseia, além de 'divino' e 'dilecto de Zeus', Ulisses é, sobretudo, o
'prudentíssimo' e o 'ardiloso'. Para Camões será, sobretudo (como em Ovídio,
M, XIII.92), o 'facundo' (II.45.1, V.86.3-4 e VIII.5.1-2), em virtude da
actividade diplomática do rei de Ítaca, de que dá conta a Ilíada. Em X.24,
porém, Camões toma o partido de Aiace (Ajax) e fala na 'língua vã' e
'fraudulenta' de Ulisses (v. comentário a esta estância, vv. 3-4). O Troiano
é Eneias, cujas navegações foram cantadas por Virgílio na Eneida. Apesar de
se tratar de 'fábulas vãs, tão bem sonhadas' (V.89.6), Camões pergunta ao
rei de Melinde: "Crês tu que tanto Eneias e o facundo Ulisses pelo mundo se
estendessem?" (V.86.3-4), tornando reais estas fabulosas viagens.

3.3
"Cale-se de Alexandro e de Trajano": Alexandre Magno, rei da Macedónia
(356-323 a. C.), falecido em Babilónia. Grande figura de cabo de guerra, de
político e de chefe civilizador. Derrotou Dario e chegou ao oceano Índico.
Já antes de 1470 o cronista Zurara estabelecia o confronto das conquistas e
navegações portuguesas com as de Alexandre e as de César: "Por certo eu
dovido", diz o autor, "se despois do grande poderyo de Alexandre e de César
foe algum principe no mundo que tan longe de sua terra mandasse poer os
malhões de sua conquista!" (cap. 63.º); "e nom sey se Alexandre, que foe hum
dos monarcas do mundo, bebeo em seus dyas augua que de tam longe lhe fosse
trazida" (cap. 65.º). Neste poema, em VIII.12.1, Alexandre é associado a
César.
Trajano (Marcus Ulpius Trajanus Crinitus), imperador romano (52-117).
Comandou as legiões da Baixa Germânia, combateu os Dácios (no Baixo
Danúbio), criou uma província de Arábia e empreendeu uma expedição contra os
Partas, povo cita. Perseguiu os Cristãos.
Luís Anriques, a propósito da morte de D. João II, escreveu no CG:

Em sua bondade trespassa Trajano,
& outro Alexandre ~e grande fraqueza [falta o ~ no e]

(Ed. GG, III, p. 68)

Ort.: Camões emprega a forma 'Alexandro' em I.3.3, V.93.2, V.95.2, V.96.7 e
X.156.7 e 'Alexandre' em VIII.12.1 e X.48.1.

3.5-7
"... o peito ilustre Lusitano": a palavra peito é empregada pelo Poeta
noventa e sete vezes (v. IAVL, s. v.) e em sete sentidos diferentes.
(Dicionário dos Lusíadas, por Afrânio Peixoto & Pedro A. Pinto, 1924). Neste
lugar está por valor, coragem: o valor, a coragem dos Portugueses; "A quem
Neptuno e Marte obedeceram": Neptuno (Posídon, na mitologia grega), filho de
Cronos (Saturno) e de Réia (ou Cíbele), deus do elemento húmido e, mais
restritamente, do mar. Irmão de Zeus; Marte, deus romano (identificado com o
deus Ares helénico, que tem como principal atributo a guerra). Era filho de
Zeus e de Hera. V. I.36.1; "Cesse tudo o que a Musa antiga canta": Cesse,
com o sentido do v. 1: cessem. MC e FS em seus comentários evocam estes dois
versos de Propércio (lib. 2, eleg. 33) como possível fonte do Poeta: "Cedite
Romani Scriptores, cedite Grai! / Nescio quid maius nascitur Iliade", que MC
traduz desta forma: «Estem (=estejam) de parte os escriptores Latinos &
Gregos, que agora novamẽte sae a luz, hum não sei quê, maior que a
Iliada de Homero"; Musa antiga, a poesia dos Gregos e Romanos.
Ort.: Antigua (gu=g).

4.1
"E vós, Tágides minhas ...": Tágides são as 'ninfas' ou 'filhas' do Tejo, a
quem o Poeta solicitará a 'fúria', isto é, a inspiração poética e às quais
associará em VII.78.3 as 'filhas do Mondego'. Não deve estranhar-se esta
associação, visto que D. Dinis

... de Helicona (Hélicon) as Musas fez passar-se
A pisar do Mondego a fértil erva

(III.917.3-4)

No entanto, a partir de III.1.1 o Poeta invoca também Calíope, (no início da
grande narrativa ao rei de Melinde) e será a 'minha Calíope' (X.8.5), mais
ainda a 'gram Rainha / das Musas' (X.9.7-8), como poderia ter dito Hesíodo
ou Virgílio. Esta será associada às 'filhas do Tejo' (V.99.6-7) e sem
esquecer o suserano das nove Musas clássicas, Febo ou Apolo. Em VII.87.5
pede a Apolo e às Musas que o acompanharam (a ele, Poeta) que lhe dobrem a
'fúria' concedida.
A criação da palavra 'Tágides' foi vindimada por André de Resende numa
anotação (liv. II, v. 195, nota 48, p. 79) ao seu poema Vincentius (1545). O
carme sobre a morte de D. Beatriz de Sabóia, em que o Poeta pela primeira
vez teria usado aquele vocábulo, ou se perdeu ou é desconhecido. (CMV, O
Instituto, vol. 52.º, 1905, pp. 241-250.)

4.5-7
"Dai-me agora um som alto e sublimado": dai-me ... uma voz que atinja o
sublime; "Um estilo grandíloco e corrente": um estilo elevado, mas fluente;
"Por que de vossas águas Febo ordene": para que Febo (epíteto de Apolo)
ordene a respeito de vossas águas (sintaxe latina, mas vigorosa em nossos
clássicos).
Ort.: grandíloco, única grafia utilizada pelo Poeta.

4.8
"Que não tenham enveja às de Hipocrene": Hipocrene é etimològicamente a
Fonte Cabalina ou a Fonte do Cavalo. Camões chamou-lhe Fonte Cabalina na
égloga IV e águas cabalinas no soneto 153. Hipocrene é uma das nascentes (a
mais celebrada pelos poetas) que brotam na "grande e divina montanha", o
Hélicon (Hesíodo) (v. "Prelúdio" da Teogonia), nos confins da Fócida e da
Beócia, entre o lago Cópais e o golfo de Corinto. O cavalo 'Pégaso' feriu a
rocha com o casco e assim brotou a fonte. Outra nascente do Hélicon é
Aganipe, citada por Camões (III.2.4). A escolha das 'musas heliconianas' por
Hesíodo justifica-se porque este, nascido em Ascra, vivia perto do Hélicon e
do vale das Musas. Camões refere ainda outras moradas de Apolo e das Musas:
o Pindo (cadeia de montanhas que separa o Epiro da Tessália) (III.2.5) e o
Parnaso, monte da Fócida, perto de Delfos, sede de um importante santuário
consagrado a Apolo, onde brotava a água da fonte Castália (I.32.4).
Ort.: enveja (por inveja).

5.1
"Dai-me ua [falta o ~ no u de ua] fúria grande e sonorosa": dai-me um
entusiasmo criador; sonoroso (de sonoro+oso), ressonante, fragorosa (mais
usada por Camões do que sonoro). Os comentadores, desde MC, comparam a fúria
ao furor latino e citam vários exemplos, como este, de Cícero: "Poetam bonum
neminem ... existere posse sine quodam afflatu quasi furoris", De Or. 2.194.
No entanto, a palavra foi estranhada, no tempo de Camões. Entre os epigramas
de Pero de Andrade Caminha encontra-se este:

Dizes que o bom Poeta á de ter furia;
Se nom á de ter mais, és bom Poeta.
Mas se o Poeta á de ter mais que fúria,
Tu nom tens mais que furia de Poeta.

(CXLV)
(Poezias ..., Lisboa, MDCCXCI



5.2
"E não de agreste avena ou frauta ruda" (a mesma ideia expressa por palavras
diferentes: avena e frauta). Estilo humilde e simples (o das églogas). Esta
ideia já foi expressa em o "verso humilde" do v. 3 da estância anterior. A
palavra avena foi provàvelmente tirada de Virgílio; cf. o suposto início da
Eneida: "Ille ego qui quondam gracili modulatus avena / carmen ..."; Frauta
ruda, flauta rústica.
Ort.: Camões só conheceu a forma frauta.

5.3-5
"Mas de tuba canora e belicosa": tuba, trombeta; canora (de canora < canor)
harmoniosa, melodiosa; belicosa (de bellicosus < bellicus) guerreira; "Que o
peito acende e a cor ao gesto muda": peito, como em I.3.5: valor, coragem;
gesto, muito frequente em Camões no sentido geral de fisionomia, feições e,
às vezes, modo; "Dai-me igual canto aos feitos da famosa": igual canto, "à
altura de" (1. par).

5.6-7
"Gente vossa, que a Marte tanto ajuda": esta é a sintaxe da edição princeps.
No entanto, o primeiro comentador, MC, alterou o sentido do verso só com
alterar o lugar da preposição a: "... a que Marte tanto ajuda", mas não
comentou nem lhe fez qualquer referência. FS voltou à forma da edição
princeps. Os modernos comentadores têm mantido a forma da edição princeps,
com excepção de MR, que seguiu MC. Não nos parece que ED tenha razão quando
diz que ajudar na edição princeps tem o sentido de 'glorificar'. Pode
entender-se que a gente portuguesa, belicosa, favorece Marte com as suas
empresas; "Que se espalhe e se cante no universo": sujeito, a fama da gente
vossa.

6.1-2
"E vós, ó bem nascida segurança / Da Lusitana antiga liberdade": começa a
dedicatória a D. Sebastião, nascido em Lisboa a 20 de Janeiro de 1554, pouco
depois de Camões ter chegado à Índia. Toda a dedicatória foi redigida na
menoridade do rei, como se verifica em I.7: Vós, tenro e novo ramo
florescente; em I.9: Que nesse tenro gesto vos contemplo; em I.16: Que,
afeiçoada ao gesto belo e tenro.

6.6-7
"Maravilha fatal ...": prodígio fixado pelo destino (fatum); "Dada ao mundo
por Deus, que todo o mande": a oração 'que todo o mande' não tem explicação
segura, apesar dos esforços dos intérpretes. Se lermos dada (a maravilha
fatal) ao mundo por Deus / Pera do mundo a Deus dar parte grande não há
dificuldade nenhuma. Parece-nos, pois, 'que todo o mande' depende de Deus, e
não de maravilha, como um anseio de que Deus (o Deus católico, a Igreja)
mande todo (o mundo).

7.1
"Vós, tenro e novo ramo florecente": tenro – juvenil.
Ort.: florecente (por florescente). Camões nunca escreveu de outra maneira.

7.4
"Cesárea ou Cristianíssima chamada": árvore (ou família) cesárea, a que
fundou o Segundo Império do Ocidente (Carlos Magno), tornado Santo Império
Romano-Germânico, de que foi fundador Oto I, o Grande (m. em 973), e durou
até 1806 (com Francisco II, imperador germânico, depois Francisco I,
imperador da Áustria); cristianíssima: Le roi Très Chrétien ou Sa Majesté
Très Chrétienne, título usado pelos reis de França em alguns actos
pontifícios do século XIV e atribuído a estes príncipes exclusivamente a
partir de meados do século XV.

7.5-8
"Vede-o no vosso escudo ...": v. título do capítulo XV da Crónica de D.
Afonso Henriques, de Duarte Galvão: "Como Nosso Senhor apareceu aquela noite
[véspera da batalha] ao príncipe D. Afonso Henriques posto na cruz como
padeceu por nós". Sobre este assunto v. III.53-54.

8.5-8
"Vós, que esperamos jugo e vitupério": v. ED, SHP (ed. de 1933, p. 45):
"Alguns verbos podem construir-se com um nome predicativo do complemento
directo, em vez de terem ligada a si uma oração substantiva de ser ou
estar": "Vós, que esperamos (que sejais) jugo e vitupério"; "Do torpe
Ismaelita ...": dos Árabes, descendentes de Ismael; "Que ainda bebe o licor
do santo rio": aqui licor (do 1. liquor, oris) significa água – a água do
rio Ganges, grande rio da Índia, que desce do Himalaia e desagua no golfo de
Bengala. É um rio sagrado, onde se banham os peregrinos.
Ort.: dece (por desce).

9.3-8
"Que já se mostra qual na inteira idade": inteira idade (1. integra aetate)
significa na força da vida; "Em versos divulgado numerosos": ritmados,
cadenciados.

10.6
"... senhor superno": superior, colocado no alto (latinismo).

11.7-8
"Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro / E Orlando, ainda que fora
verdadeiro": personagens do Orlando Furioso, de Ariosto.

12.1-7
"Por estes ...": "um Nuno fero", D. Nuno Álvares Pereira; "um Egas, Egas
Moniz, aio de D. Afonso Henriques; "um Dom Fuas", D. Fuas Roupinho, figura
meio lendária do nosso século XII. Desbaratou os Mouros na terra e no mar,
até que foi deles vencido nas águas de Ceuta. Venceu os Mouros em Porto de
Mós, de que tinha o castelo D. Fuas, aos 22 de Maio de 1180; derrotou os
Mouros numa batalha naval no cabo Espichel em 15 de Julho do ano citado. A
derrota de D. Fuas em Ceuta, depois de ter aí alcançado alguns êxitos, foi
em 17 de Outubro do mesmo ano (mas Frei A. Brandão diz 1182). A fonte destas
notícias é a Crónica de D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão. Camões volta
a falar de D. Fuas em VIII.16-17; "Doze Pares" segundo a Chanson de Roland,
os Doze Pares foram: Roland, Olivier, Samson, Anséis, Gérin, Gérier,
Bérenger, Othon, Girard de Roussillon, Ivon, Ivoire, Engelier; "os doze de
Inglaterra e o seu Magriço": doze, incluindo o Magriço; "o ilustre Gama" – o
descobridor da Índia.

13.1-7
"Pois se a troco de Carlos, Rei de França": Carlos, Carlos Magno, imperador
do Ocidente (800-814); "César", Júlio César (101-44), conquistador das
Gálias (59-51), assassinado no meio do Senado, aos idos de Março. Recorda-se
a sua frase para um dos mais activos dos conjurados, seu filho adoptivo,
Bruto: "Tu quoque, fili!"; "aquele que a seu Reino a segurança / Deixou
...": D. João I, vencedor de Aljubarrota; "Outro Joane ...": D. João II.

14.4-7
"Vossa bandeira sempre vencedora": (e fizeram) vencedora vossa bandeira;
"vencedora", nome predicativo de "bandeira"; "um Pacheco fortíssimo", Duarte
Pacheco Pereira (v. X.12-25); "os Almeidas", D. Francisco de Almeida e seu
filho D. Lourenço de Almeida (v. X.26-38); "Albuquerque terríbil", Afonso de
Albuquerque (v. X.40-49); "Castro forte", D. João de Castro (v. X.67-72).
Terríbil é latinismo.

16.1-2
"Em vós os olhos tem o Mouro frio": frio (de medo) por ver afigurado em D.
Sebastião seu exício, isto é, a sua ruína (latinismo).

16.5-8
"Tétis todo o cerúleo senhorio": Tétis, filha do Céu e da Terra, esposa do
Oceano, reserva em dote a D. Sebastião "todo o cerúleo (=da cor do céu)
senhorio" porque "deseja comprá-lo para genro". Imitação do verso de
Virgílio: "teque sibi generum Tethys emat omnibus undis» (porventura Tétis,
pelo preço das suas ondas, pagará a honra de te ter por genro) (G, I.31).
MC foi o primeiro a indicar a fonte virgiliana.

17.1-2
"Olímpica morada ...": olímpica, de Olimpo, montanha entre a Macedónia e a
Tessália, residência dos deuses; "Dos dous avós ...": D. João III, pai do
príncipe D. João, e Carlos V, pai da princesa D. Joana.

18.5-6
"... o salso argento": argento, latinismo que significa prata; "Os vossos
Argonautas ...": o Poeta evoca os conquistadores do Velo de Oiro, na
Cólquida, a bordo do navio Argo. Apolónio Ródio e Valério Flacco escreveram
poemas sobre este assunto: Argonáutica.

19.1-8
"Já no largo Oceano navegavam": princípio da narração; "Que do gado de
Próteu são cortadas": Proteu é, na Odisseia, um deus do mar, que tem o
especial encargo de fazer pastar os rebanhos de focas e outros animais
marinhos pertencentes a Posídon (v. VI.20.5-6). Proteu possuía o dom
profético (v. VI.36.1-4). Tinha o poder de se metamorfosear em todas as
formas que desejasse (v. VII.85.4).
Acent.: o acento em Próteu é exigência métrica.

20.7-8
"Convocados, da parte de Tonante": Tonante, epíteto dado a Júpiter como deus
das trovoadas; "Pelo neto gentil do velho Atlante": neto do velho Atlante,
ou Atlas, era Mercúrio, filho de Júpiter e de Maia, a mais nova das
Plêiades. Estas eram filhas de Atlas, o Gigante, e de Plêione; esta, por seu
turno, filha do Oceano e de Tétis. Mercúrio era um mensageiro de Júpiter.

21.1-8
"Deixam dos sete Céus o regimento": os sete Céus são as sete esferas
planetárias do sistema de Ptolemeu; "Os que habitam o Arcturo congelado": o
Arcturo é a estrela mais brilhante da constelação do Boieiro ou Bootes. Foi
considerada por vezes como fazendo parte da Ursa Maior e Arcturo significa
literalmente guarda da ursa; "E os que o Austro têm ...": os que moram no
Sul; "... e as partes onde / A Aurora nasce e o claro Sol se esconde":
vieram, portanto, os deuses do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste ao
concílio.

22.1-2
"Estava o Padre ...": Júpiter; "Que vibra os feros raios de Vulcano":
Vulcano, filho de Júpiter e de Juno, era o deus do fogo e fabricava os raios
para seu pai.
Ort.: dino (por digno).

23.2
Ort.: perlas (por pérolas).

24.2
"Estelífero Pólo e claro Assento": Pólo, céu (1. polus); claro Assento:
brilhante morada; "De Luso ...": Júpiter afirma a descendência dos
Portugueses. Estelífero, estrelado (latinismo).

24.6
"Como é dos Fados grandes ...": grandes em poder.

25.8
"Teve os troféus pendentes da vitória": teve pendentes os troféus da
vitória; troféu era propriamente o tronco de árvore do qual se dependuravam
as armas dos vencidos.

26.2-4
"Que co a gente de Rómulo alcançaram": gente de Rómulo, os Romanos; o
sujeito de alcançaram é a forte gente de Luso (os Lusitanos); "Quando com
Viriato, ...": Viriato (v. VIII.5.6-7 e VIII.6.2-6), pastor lusitano, que
acaudilhou os guerrilheiros lusitanos, infligindo grandes perdas aos
Romanos. Quinto Servílio Cipião, em vez de aliança e amizade, preferiu
comprar três amigos de Viriato, que o assassinaram à traição (139).

26.6-8
"... quando alevantaram / Um por seu capitão, que, peregrino, / Fingiu na
cerva espírito divino": Sertório, tendo recebido como presente uma corça
branca, que ele dizia ter sido um presente de Diana, afirmava que ela lhe
revelava todas as coisas ocultas (ver em Plutarco, Sertorius, 11). Peregrino
(latinismo), estrangeiro.

27.1-4
"Agora... a mais s'atreve": por a mais se atrevem; Áfrico, vento de
sudoeste; Noto, vento do sul; "Que havendo tanto já que as partes vendo /
Onde o dia é comprido e onde breve"; o Poeta indica as navegações de norte a
sul pelo Oeste de África.

27.7-8
"Inclinam seu propósito ...": o Poeta volta à concordância lógica: sujeito
os Lusitanos; "A ver os berços onde nasce o dia": a ver o Oriente.
Ort.: perfia (por porfia).

28.1-4
"Prometido lhe está . . .": lhe por lhes era corrente; "Do mar que vê do Sol
a roxa entrada": perífrase para designar os mares orientais. No tempo de
Camões preferia-se dizer roxo a vermelho: "roxa entrada", em I.28.4 e
I.59.3; "a roxa fronte", II-13.8; o "Mar Roxo", II.49.1; "roxa Aurora",
IV.60.7, etc.

29.1-3
"... têm passados ... [têm] experimentados": note-se a concordância do
particípio passivo em género e número com o complemento directo.

30.3-5
"Na sentença um do outro diferia": diferia não concorda com Deuses (v. 2),
mas com o aposto um; "O padre Baco ali não consentia": aparece pela primeira
vez o grande inimigo dos Portugueses a dar as razões do seu desacordo. Baco
(Dionysos) é filho de Júpiter (Zeus) e Sémele. Descobriu a vide e o seu uso.
Conquistou a Índia no decorrer de uma expedição semiguerreira, semidivina.

31.4-8
"Da Índia tudo quanto Dóris banha": Dóris, filha do Oceano e esposa de
Nereu. É a mãe das Nereidas; "De que Nisa celebra inda a memória": para
furtar Baco aos ciúmes de Hera, Júpiter transportou Baco para longe da
Grécia, para um país chamado Nisa, que uns situam na Ásia, outros na Etiópia
ou na África, e deu-o a criar às Ninfas desse país. V. comentário a
VII.52.5.

32.1-7
"Vê que já teve o Indo sojugado": Indo (ou Sindh), grande rio da Índia e do
Paquistão, que se lança ao mar de Omã, formando um vasto delta; "De quantos
bebem a água de Parnaso": o Parnaso, monte da Grécia, na Fócida, consagrado
a Apolo e às Musas. Aí nasce e corre a fonte Castália; "D'água do
esquecimento ...": água do Lete, um dos rios dos Infernos, que significa em
grego esquecimento.
Ort.: sojugado (por subjugado).

33.1-6
"Sustentava contra ele Vénus bela": aparece agora a protectora dos
Portugueses, afeiçoada à gente lusitana pelas razões que se invocam nesta
estância e se repetem na est. IX.38. Vénus foi assimilada à Afrodite dos
Gregos no segundo século a. C. Afrodite é a deusa do amor e da beleza. Vénus
foi mãe de Cupido e de Eneias e esposa de Vulcano. Tem n'Os Lusíadas um
papel intercessor fundamental; "Nos fortes corações, na grande estrela": na
coragem e na fortuna; "Que mostraram na terra Tingitana": Mauritânia
Tingitana ou Marrocos. É a parte da Mauritânia onde se situa Tinge ou Tingi
(Tânger).

34.1-3
"Estas causas moviam Citereia": Citereia é uma das designações de Vénus por
ter um santuário em Citera, ilha do mar Egeu. O Poeta só volta a invocar
Citereia em IX-53; "E mais, porque das Parcas claro entende": As Parcas são
as divindades do Destino, equiparadas às Moïrai dos Gregos: Cloto, Láquesis
e Átropos; a clara Deia": a distinta Deusa.
Ort.: perfia (por porfia). Porfia em 36.2.

35.1
Qual Austro fero ou Bóreas na espessura": tal como o vento do sul ou do
norte.

36.1
"Mas Marte ...": deus da guerra, também conhecido por Mavorte. Sobre os
amores de Vénus e de Marte veja-se Lucrécio, De rerum natura, I.33-40.
Recorde-se que Vénus era esposa de Vulcano e atente-se nestes versos de
Ovídio: "Solis referemus amores / Primus adulterium Veneris cum Marte
putatur / Hic vidisse deus; videt hic deus omnia prima." (M, IV.170-172.); e
em V, G, IV. vv. 345-346: "Inter quas curam Clymene narrabat inanem Vulcani,
Martisque dolos et dulcia furta."

37.7
"O Céu tremeu, e Apolo, de torvado": Apolo, filho de Zeus e de Leto. Esta,
perseguida por Hera, foi ter a uma ilha chamada Ortígia, flutuante e
estéril. Aí nasceu Apolo. Este, em reconhecimento, fixou a ilha no centro do
mundo grego e deu-lhe o nome de Delos, 'a brilhante'. Entre os seus
múltiplos atributos conta-se o de ser o deus da luz e de conduzir o carro do
Sol.

38.3-5
"Se esta gente ... / Não queres que padeçam ...": concordância do colectivo
do singular com o verbo no plural.

39.3-4
"Bem fora que aqui Baco os sustentasse, / Pois que de Luso vêm, seu tão
privado": neste lugar Luso foi privado de Baco; em III.21.5-7 diz o Poeta:
"Esta foi Lusitânia, derivada / De Luso ou Lisa, que de Baco antigo / Filhos
foram, ... ou companheiros"; em VIII.2.7-8 diz de "... Luso, donde a Fama /
O nosso Reino «Lusitânia» chama [Filho e companheiro do Tebano]". E insiste
em VIII.4.4: "... companheiro e filho amado". Portanto: 1.º, privado; 2.º,
filho ou companheiro; 3.º, filho e companheiro.
Ort.: estâmago (por estômago, índole).

41.4-7
E néctar sobre todos esparziu": o néctar era a bebida e o perfume dos
deuses; "Pelo caminho lácteo glorioso": a Via Láctea; "Fazendo seus reais
acatamentos": fazendo suas profundas reverências.
Ort.: valeroso (por valoroso); apousentos (por aposentos).

42.1-6
"Enquanto isto se passa ... ": o Poeta retoma a narração; "Ilha de São
Lourenço ...": Madagáscar.

42.7-8
"[e o Sol ardente] Queimava então os Deuses que Tifeu / Co temor grande em
pexes converteu": Tifeu, gigante, filho de Titã e da Terra, inimigo de
Júpiter, chefe daqueles que pretenderam escalar o Céu. Os deuses quando
viram este monstro escalar o Céu fugiram para o Egipto e metamorfosearam-se.
Vénus mudou-se em peixe, como diz Ovídio, M, V.331: "Pisce Venus latuit".
Diz LPS, em AL: "O Sol entrava no signo dos Peixes a 10 de Fevereiro e
levava a percorrê-lo até 11 de Março, em que passava para o de Áries. A
gente belicosa cortava o mar desde 24 de Fevereiro e ia chegar à ilha de
Moçambique, que avistaram em 1 de Março. Esteve durante este trajecto sempre
o Sol no signo dos Peixes".
Ort.: pexes (por peixes).

43.5
"O promontório Prasso já passavam": "O principio da qual começando na
orietal [falta o ~ no e de orietal]parte della he o Prasso promontorio, q[~]
elle Ptholomeu sitou em quinze graos contra o Sul & em tantos estâ per nós
verificado: ao qual os naturaes da terra chamam Moçambique, onde ora temos
hũa fortaleza que serve de escala das nossas naos nesta navegação da
India" (Barros, I.VIII.IV).

45.7
"A gente se alvoroça ... /... / (em si diziam)": sujeito colectivo a
concordar com o verbo no plural.

46.6-8
"Que Fáëton, nas terras acendidas": a lenda de Fáeton é admiràvelmente
contada por Ovídio, em M, II.1-366; "(O Pado o sabe e Lampetusa o sente)": o
corpo de Fáeton foi precipitado no Erídano, identificado com o rio Pó
(Pado). Foi sepultado por suas irmãs, as Helíades, uma das quais se chamava
Lampécia. Na Odisseia (XII.132) aparece uma outra filha do Sol, ao lado de
Lampécia: Faetusa. Em V.91.6 aparece o nome de Lampécia. Lampetusa parece
ser a junção de Lampécia e Faetusa: Lampe+tusa.
Ort.: veloces (por velozes).

47.1-8
"De panos de algodão vinham vestidos": Castanheda, I.V: "A gente q [falta o
~ no q] vinha dentro erã homẽs baços & de bõs corpos, vestidos de
panos dalgodão listrados & de muytas cores, hus cingidos até o giolho, &
outros sobraçados como capas: & nas cabeças fotas cõ vivos de seda lavrados
de fio douro, & trazião terçados mouriscos & adagas"; "anafis sonorosos":
anafil (pl. anafis ou anafiles), trombeta dos Mouros.

48.5-8
"A gente e marinheiros trabalhavam": trabalhavam todos; "Da âncora o mar
ferido em cima salta"; bela imagem do Poeta para pôr em relevo o efeito da
âncora a cair no mar e a "espirrar" a água para cima.

49.6-8
"Do licor que Lieu prantado havia": Lyaeus, um dos nomes de Baco, o deus que
liberta dos cuidados; "Os de Fáeton queimados nada enjeitam"; os queimados
por Fáeton, os negros.
Ort.: prantado (por plantado).

50.7
" – Os Portugueses somos do Ocidente": aposição explicativa de Portugueses.

51.2-8
"Toda a parte do Antártico e Calisto": Antártico é o Pólo; Calisto a Ursa
Maior. Calisto, filha de Licáon, rei da Arcádia. Amada de Zeus, foi mudada
em ursa por Hera e morta na caça por Ártemis. Zeus colocou-a no céu, onde se
tornou a constelação da Ursa Maior. O sentido do verso é, pois, o de que os
Portugueses têm navegado toda a parte setentrional e meridional do Oceano;
"Mas no lago entraremos de Aqueronte": os Portugueses são tão fiéis e
obedientes a seu Rei que, a seu mandado, serão capazes de entrar no
Aqueronte, que é um rio dos Infernos.

52.4
"Que só dos feios focas se navega": feios focas (m.) se navega, por é
navegado.

53.6-8
"O claro descendente de Abraão": o célebre Mafoma ou Mafamede; "A mãe
Hebreia teve e o pai, Gentio": Camões conhecia o passo de Barros, II.X.VI:
"Nasceo em Itrarip lugar pequeno de Arábia, seu pae (segundo dizem os
Mouros) era de hũa linhagem, a que elles chamão Corax, & vem de Ismael,
& avia nome Abedelá Gẽtio, sua mãe Enima, a qual era Hebrea, ambos
pessoas do povo ..."

54.1-4
"... certa escala": escala certa; "De Quíloa, de Mombaça e de Sofala": Vasco
da Gama, na sua segunda viagem à Índia, sujeitou o rei de Quíloa à
obediência do rei de Portugal (1502); Mombaça foi assaltada por D. Francisco
de Almeida em 1505; neste ano Pero da Nhaia, de origem castelhana, conseguiu
do xeque o início de uma improvisada fortificação em Sofala (v. X.94.8).

55.2
"Buscando o Indo Idaspe ...": O Hidaspe, grande rio da Índia, afluente do
Indo, actualmente o Jelam ou Djelem. Aí tiveram termo as conquistas de
Alexandre Magno no Oriente.

56.5-7
"Nisto Febo nas águas encerrou”: em grego, literalmente “o brilhante”.
Epíteto e nome de Apolo; "Dando cargo à Irmã ...": Diana. Os Antigos
interpretaram Ártemis (identificada a Diana) como uma personificação da Lua,
que vagueia pelas montanhas.

58.2-3
"Pelas argênteas ondas Neptuninas": pelas ondas do mar (de Neptuno); "As
Estrelas os Céus acompanhavam": as estrelas fixas acompanhavam o firmamento;
os planetas são levados nos céus respectivos. V. LPS, AL, p. 35.

59.4
"Ao claro Hiperiónio, que acordou": Hiperíon ou Hiperiónio, um dos Titãs,
filho de Úrano e de Gaia. Casado com sua irmã, a titânida Teia, gerou o Sol,
a Lua e a Aurora. Toma-se por vezes, como neste verso, pelo próprio Sol.
Ort.: fermosos (por formosos).

60.4-5
"Que são aquelas gentes inumanas": isto é, gentes bárbaras; "Que, os
apousentos Cáspios habitando": os Turcos começaram por habitar as regiões
banhadas pelo mar Cáspio, depois vieram descendo e apossaram-se da maior
parte do Império Romano do Oriente e acabaram, com Maomet II, por tomar a
própria capital, Constantinopla, em 29 de Maio de 1453. No terrível assalto
final morreu o imperador Constantino, Paleólogo.
Ort.: apousentos (por aposentos).

61.6
"Não usado licor, ...": dos Maometanos. Castanheda, I.VI: "& apos isto lhe
mandou dar muy bẽ de comer dessas conservas q[~]levava: & do vinho: &
ele [o Regedorl comeo & bebeo de boa võtade: & assi os q[~] hião coele ..."

62.8
"Se porventura vinham da Turquia": Castanheda, I.VI: "Ho çoltão preguntou a
Vasco da Gama se vinha de Turquia, porq[~] ouvira dizer q[~] erão brãcos
assi como os nossos, & dizialhe que lhe mostrasse os arcos de sua terra, &
os livros de sua ley. Ele lhe disse que não era de Turquia se não du grande
reyno q[~] confinava coela; & que os seus arcos & armas lhe mostraria & os
livros da sua ley não os trazia, porq[~] no mar não tinhão necessidade deles
..."
Ort.: na edição princeps, nesta est. exárcia. Em VI.84.4 enxárcia.

64.2-4
"Por hum que a língua escura bem sabia": Castanheda, loc. cit.: "E isto lhe
dezia pelo lingoa Fernão martinz». O Poeta fala dele em V.77.2. Língua
escura é a língua arábica; "De mi, da Lei, das armas que trazia": trazia,
por trago. O mesmo em 66.2-6.
Ort.: valeroso (por valoroso).

65.1
"Aquele que criou todo o Hemisfério": "O Poeta em geral designa por
Hemisfério a meia esfera que se apoia sobre o horizonte". LPS, AL, p. 153.

65.2,4,6,7
"Visíbil", "invisíbil", "insensíbil" e "insofríbil" são latinismos.
Ort.: deceu (por desceu).

66.2-6
"Os livros que tu pedes não trazia": por não trago; "Em papel o que na alma
andar devia": por andar deve; "Cumprido esse desejo te seria"; por te será.

67.2
"Ministros ...": servidores (latinismo). Outros exemplos do mesmo sentido em
II.96.3, III.125.4 e IX.29.5.

67.3-8
"Vêm arneses e peitos reluzentes": arnês, armadura completa, mas em especial
do tronco; malhas finas, armaduras de malha; escudos de pinturas diferentes,
arma defensiva, geralmente circular, com as empresas e divisas que cada um
adoptava; pelouros, balas, em geral de metal, empregadas em bombardas e
peças de artilharia; espingardas de aço puras (caso de trajectio
epithetorum): não espingardas puras, mas de aço puro; arcos, bestas;
sagitíferas aljavas, coldres ou carcases portadores de setas. Sagitífero é
latinismo; partazanas (fr. pertuisane), arma de hástea, com ferro de gládio,
cortante, mais largo na base e terminando em ponta; chuços, pau armado de
aguilhão ou choupa.

68.2-4
"As panelas sulfúreas ...": arma muito danosa, por ser preparada com pólvora
e enxofre candentes; "... aos de Vulcano ...": os bombardeiros ou
artilheiros, que manejavam as bombardas e peças de artilharia.

69.3-5
"Um ódio certo . . .": um ódio firme; "Nas mostras e no gesto o não
mostrou": no tratamento, não no rosto.

71.4-6
"Que o filho de David nos ensinou": "... Jesus Cristo, filho de David, filho
de Abraão" ("Ev. de S. Mateus", I.I.1); "A quem juízo algum não alcançou":
negativa reforçada.
Ort.: sequaces (por sequazes).

72.6-8
"Das águas de Neptuno...": v. I.3.5-7; "... recebido / Na terra do
obseqüente ajuntamento": recebido em terra pela serviçal multidão de mouros.
Obseqüente é latinismo; "Se foi o Mouro ao cógnito apousento": ao conhecido
aposento.

73.1-2
"Do claro Assento ..., o grão Tebano": outro nome de Baco, por sua mãe,
Sémele, ser de Tebas; "Que da paternal coxa foi nascido": Baco,
"Ignigenamque satumque iterum solumque bimatrem», como diz Ovídio, M, IV.12,
porque sua mãe, Sémele, quis que Zeus se lhe mostrasse em toda a sua
potência; mas, não podendo suportar a vista dos raios que o cercavam, caiu
fulminada. Zeus apressou-se a arrancar o filho que ela trazia no seio,
apenas com seis meses, e coseu-o imediatamente na sua coxa. Quando chegou o
termo, saiu de lá perfeitamente formado e vivo. É por isso o "duas vezes
gerado", "o único que teve duas mães".
Ort.: avorrecido (por aborrecido).

74.6
"... qualidades generosas": no sentido latino de generosus: de boa raça,
nobre.

75.2-7
"O filho de Filipo nesta parte": Alexandre Magno, "o grão Macedónio"
(I.75.7), que submeteu uma parte da Índia (356-323 a. C.); "Romano" é
Trajano (v. I.3.3).
Ort.: sometesse (por submetesse).

76.4
"Que nunca veja as partes do Oriente": que nunca verá ...
Ort.: decerei (por descerei).

77.4-8
"Pera o Prasso sabido se moveu": para o conhecido promontório Prasso (v.
I.43.5); "... e co Xeque mui valido": Xeque é o governador, chefe de tribo
arábica.

78.4
"... de novo": ùltimamente.

80.1-8
"E também sei que tem determinado": v. Castanheda, I.VII; "Porque, saindo a
gente ... / Caïrão ...": concordância com o sujeito colectivo no singular.

81.3-5
"Eu tenho imaginada no conceito": concordância com o compl. directo; "Outra
manha e ardil ...": pleonasmo; "Manda-lhe dar piloto, que de jeito": jeito
rima com jeito do primeiro verso da mesma estância.

82.1-7
"Tanto que estas palavras ...": o sujeito é Baco; "... nos tais casos sábio
e velho": sábio e experimentado; "Pera que ao Português se lhe tomasse": lhe
é pleonasmo. Belígero é latinismo.

83.7
"Que, se daqui escapar, que lá adiante": repetição anacolútica do segundo
que.

84-1-3
"Já o raio Apolíneo ...": o singular pelo plural; "Os Montes Nabateios
acendido [o raio]": habitados pelos Nabateus, descendentes de Nabath,
primogénito de Ismael, tribo do Noroeste da Arábia, entre o mar Vermelho e o
Eufrates. Aqui os Montes são tomados pelas partes do Oriente; "Quando Gama
...": caso de fonética sintáctica.

85.2
"De antes, pelo piloto necessário": por antes.

86.3-5
"Um ... / Outro ...": uns ... outros; "... de azagaia": azagaia, lança
curta; "... seta ervada": seta envenenada com sucos de ervas; "Outros muitos
já postos em cilada": estando outros muitos postos em cilada.

87.3-5
"Com a adarga e co a hástea perigosa": adarga, escudo oval, de coiro (adarga
nada tem que ver com adaga); a gente generosa": como em I.74.6.

88.1
"Qual no corro sanguino ...": esta estância pertence para a anterior (87), e
não para a seguinte (89). É necessário que a pontuação o torne evidente.
Cornígera: latinismo.
Ort.: atroce (lat.) (por atroz).

89.3-7
"A plúmbea péla mata, o brado espanta": plúmbea péla, bala de chumbo; brado,
estrondo; "Já foge o escondido ...": os Mouros escondidos em cilada.
Ort.: assovia (por assobia).

91.3
"A pedra, o pau e o canto arremessando": canto como sinónimo de pedra
talhada era usual no tempo. Camões usa-o também na Lírica.

91.4-8
"Dá-lhe armas o furor desatinado": em Virgílio, E, I.150: "jamque faces et
saxa volant, furor arma ministrat"; "... e todo o mais,": ... e tudo o mais;
"Passa e corta do mar o estreito braço / Que a Ilha em torno cerca em pouco
espaço": em pouco espaço pertence para Passa e corta.
Camões condensa e transforma nestas estâncias a narrativa de Castanheda
(I.VII) e de Barros (I.IV.IV).

92.1-6
"Uns vão nas almadias carregadas": embarcação ligeira, de duas proas, feita,
de um tronco de árvore escavado. Movida a remo e por vezes com uma vela em
duas hastes, dispostas em forma de V; "Um corta o mar ...": uns ...; "Quem
se afoga ...": uns ...; "Quem bebe o mar ...": outros ...; "Os pangaios
sutis ...": pequena embarcação de tábuas unidas por cordas. Sutis, pequenos
e leves.

94.2
"O Regedor daquela inica terra".
Ort.: inica (por iníqua).

95.1-8
"... que já lhe ...": a quem já; "... a tento": acauteladamente; "As velas
manda dar ao largo vento": a edição princeps tem "Aas velas manda dar ..."
Não é impossível esta construção no tempo.

96.2-3
"As ondas de Anfitrite dividia": Anfitrite era a rainha do mar. Pertence ao
grupo das Nereidas. Casou com Neptuno (Posídon); "Das filhas de Nereu
acompanhada": as Nereidas.

97.5
"Dando razão dos portos ...": dando notícia ...

98.2
"Com que Sínon os Frígios enganou": Sínon, o célebre grego de que fala
Virgílio, que conseguiu introduzir o cavalo de pau dentro dos muros de Tróia
(E, 57-267). Os Frígios eram os Troianos, pois que Tróia era na Frígia.

99.1-6
"O mesmo o falso Mouro determina / Que o seguro Cristão lhe manda e pede": o
mesmo (que o confiado Capitão lhe manda e pede) o falso Mouro determina;
"Porque em poder e forças ...": é pleonasmo; "Aa Moçambique, esta ilha ...":
na edição princeps.
Ort.: malina (por maligna).

100.2
"Mas a Deusa em Citere celebrada": Vénus ou Citereia. Esta salva a armada
dos perigos naturais da entrada de Quíloa (cf. Castanheda, I.VIII).
Ort.: contrairos (por contrários).

101.7-7
"... cuja gente / Eram Cristãos ...": concordância do colectivo singular com
o verbo no plural.
Ort.: inica (por iníqua).

102.7-8
"Mas, não querendo a deusa guardadora, / Não entra pela barra, e surge
fora": Vénus defendeu os Portugueses em Quíloa e volta a defendê-los em
Mombaça (v. Castanheda, I.IX).

105.2
Ort.: debaxo (por debaixo).

106.2-8
"... a morte apercebida": aparelhada; "Contra um bicho da terra tão
pequeno?": Camões repete o verso que usou na canção junto de um seco, fero e
estéril monte ...
Ort.: avorrecida (por aborrecida).


PS : ESTE TEXTO NAO FOI COPIADO NAS REVISTAS DAS BOMBAS DA GALP NEM GANHO A
PONTOS A JOGAR Á BISCA, E DESCULPEM A FORMA DE ESCREVER DO NOSSO CAMOÊS QUE
PELO MENOS NAO COPIA TEXTOS PARA SE ARMAR EM INTLETUAL


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